Uma adaptação das memórias do jornalista J. R. Moehringer, o mais recente filme realizado por George Clooney é um pequeno apontamento sobre o caminho a percorrer no encalço senão de uma carreira literária, pelo menos de uma vida dedicada aos livros. No contexto da obra de Clooney-realizador pouco ou nada acrescenta, deixando, aliás, a impressão que o interesse por aquilo que se passa trás da câmara da parte do ator é como uma paixão que vai ficando cada vez mais para trás – já lá vão mais de dez anos desde que deu o último ar da sua graça com “Tudo pelo Poder“, e a partir daí foi praticamente sempre a descer. Por outro lado, e olhando para um horizonte mais alargado – falo, é claro, desse terreno nebuloso que são os filmes que querem dizer coisas bonitas sobre os livros -, não há como não lhe reconhecer uma certa incapacidade (hesitação, falta de vontade?) em entrar num diálogo cinematográfico com o universo mitológico e pessoal de Moehringer, caindo invariavelmente na armadilha de se deixar colar aos clichés que vão oferecendo alguma cor à narrativa.

The Tender Bar” é portanto um filme de recorte biográfico onde os lugares comuns ameaçam diminuir aquilo que de mais “pessoal e intransmissível” se pode encontrar na memória enquanto género: filho de uma mãe solteira (Lily Rabe), o pequeno J.R (interpretado por Daniel Ranieri enquanto criança, e por Tye Sheridan enquanto jovem adulto) é desde cedo puxado para o mundo dos livros por Charlie , o tio que trabalha num pitoresco pub apetrechado de livros chamado Dickens, um personagem que é na verdade o autêntico pulmão do filme (aqui interpretado por um Ben Affleck num registo “over the top“, e que nos melhores momentos consegue cruzar comédia com vestígios de qualquer coisa com outra profundidade) e que impulsiona J.R. para outros voos, numa relação com a leitura capaz de servir a sua educação enquanto homem, mas também como base para uma vida ainda por vir, a vida de escritor. O arco narrativo do filme atravessa a passagem para a vida adulta de J.R., com paragem pelos sustos mais cicatrizantes que inevitavelmente se atravessam pelo caminho (a doença da mãe, a difícil relação com o pai), mas também pelos momentos de maior afeto, até mesmo pela forma com o avô vai aparecendo em momentos chave da sua vida (excelente Christopher Lloyd, que mesmo não saindo do papel de avô excêntrico consegue oferecer alguma crueza mais honesta ao filme).

Clooney navega esta tormenta com um distanciamento que não sendo propriamente clínico, deixa ainda assim transparecer algum automatismo na forma como trata o material de origem. É possível que ninguém lhe tenha pedido isso, mas é difícil de perceber o que é que Clooney-realizador pensa sobre o material que acabou de filmar. Afirmar que assinou um filme com uma leveza quase caricatural é um exagero, mas por outro lado “The Tender Bar” nunca se aproxima de forma convincente daquela que é para todos os feitos a memória de uma vida de uma pessoa de carne e osso.

E no fim ficamos com isto: um filme que não consegue, nem verdadeiramente pretende, escapar da romantização da literatura e dos ziguezagues da vida enquanto abecedário da construção de um herói literário. 

Pontuação Geral
José Raposo
Jorge Pereira
the-tender-bar-vida-cheia-copo-vazioUm filme que não consegue, nem verdadeiramente pretende, escapar da romantização da literatura e dos ziguezagues da vida