Uma das primeiras sensações que o espectador tem neste “Mass” é a relativa surpresa de tudo o que assistimos não ter sido desenhado para o teatro ou literatura. Durante a maioria do seu tempo, “Mass” desenrola-se numa sala fechada numa igreja episcopal onde dois casais contam histórias e tentam entender um pouco melhor como ultrapassar um evento trágico.

A sala, uma verdadeira panela de pressão de tensões e conflitos entre os pais de um rapaz que assassinou uma série de colegas da escola, cabia toda num palco, tentando o ator transformado em realizador Fran Kranz dar a isso uma dimensão de cinema, a começar pela figura neutra da localização.  Esta dimensão do filme que segue a forma de plateau não é de todo nova, e objetos como “12 Homens em Fúria”, “Carnage” ou os recentes “Vous ne désirez que moi” e “O Pai”, muitos deles baseados em peças, mostram como é possível desencantar cinema do bolso em material que na sua forma grita por outra forma de arte.

A verdade é que Kranz tem dificuldades nessa transposição (mesmo sendo a génese um filme e não uma peça), seguindo a rota do minimalismo de procedimentos e confiando apenas no texto e na interpretação dele por parte dos seus atores (Reed Birney, Ann Dowd, Jason Isaacs e Martha Plimpton). E é inequívoco o poder dramático de tudo que está em cena, uma busca de explicações e exposição de culpa para um tema complexo de digerir que, por aqui, mais que seguir a mensagem anti porte de armas nos EUA, se focae nas responsabilidades parentais que poderiam ou não travar a tragédia.

O dinâmico quarteto de atores debela-se pois num verdadeiro exercício de terapia, muitas vezes comovente e emocionalmente eficaz, mas se procurarmos uma linguagem de cinema propriamente dita, o trabalho de Fran Kranz revela-se escasso, especialmente se o compararmos aos exemplos citados, em particular o filme de Claire Simon, que de forma estonteante e inventiva recria cinematicamente uma entrevista apenas a dois. Na verdade, e tirando os primeiros momentos do filme e os do final, que servem de introdução e conclusão para a típica estrutura dos três atos, o espectador nunca sente nada além do texto e a sua leitura e, por isso, “Mass” – enquanto cinema – não acrescenta nada ao que um livro ou peça ainda no papel não o fizesse.

Mas atenção: existe suficiente força dramática no texto para “Mass” exigir uma reflexão, mas Fran Kranz não entende bem as potencialidades do cinema perante o que tem em mãos.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
mass-terapia-entre-quatro-paredesExiste suficiente força dramática no texto para "Mass" exigir uma reflexão, mas Fran Kranz não entende bem as potencialidades do cinema perante o que tem em mãos.