O cinema de Mike Mills, de “Thumbsucker” a “C’mon C’mon”, vive carregado de angústias familiares e marcas autobiográficas, como se viu em “Beginners“, uma “carta de amor ao pai”, e “Mulheres do Século XX“, inspirado na mãe e na sua educação a cargo de três mulheres. Mas longe de se apoderar ou ceder aos clichês narrativos e técnicos na sua abordagem a retratos normalmente disfuncionais (o grande chamariz do indie norte-americano), Mills sempre optou pela simplicidade e poesia, sem com isso retirar força aos temas abordados, contribuindo mesmo para um acréscimo da densidade emocional das suas histórias e personagens.
Realizador de videoclipes para artistas como os Air, Moby e Yoko Ono até se estrear nas longas-metragens com “Thumbsucker”, Mills sempre disse que a sua maior influência foram os trabalhos gráficos que executou antes disso, encontrando o espectador nele uma apetência para misturar várias formas de arte. E este seu “C’mon C’mon” é uma delícia em toda a sua simplicidade artística, quer visual, onde recorre a um preto e branco que e esbate e padroniza uma geografia urbana norte-americana muito diversa (dos arranha-céus de Nova Iorque, à Califórnia, passando pela unicidade carnavalesca e da explosão de cor de Nova Orleães), quer narrativa, pois foca-se essencialmente em duas personagens e na sua interação: um tio, Johnny (Joaquin Phoenix), e o seu sobrinho, Jesse (Woody Norman), que embarcam numa viagem de auto-descoberta enquanto a mãe da criança, Viv (Gaby Hoffmann), tenta afastar o miúdo do processo de tratamento do seu pai, bipolar.
Filme sobre o sarar de feridas sentimentais, não só do miúdo em relação à mãe, com quem vai falando ao telefone, mas igualmente de Johnny e Viv, também eles reunidos após uma quezília familiar, “C’mon C’mon” é essencialmente sobre o aprender a ouvir, a escutar realmente o que o outro tem para dizer. E nesse aspeto, uma nota para a prestação de Joaquin Phoenix, teoricamente nos antípodas das neuroses do seu “Joker“. Porém, também o vilão da DC queixava-se da falta de empatia pelo próximo e do não se colocar no lugar do outro para ouvir e sentir a sua frustração. Nesse aspeto, o Arthur de “Joker” e o Johnny de aqui aproximam-se, com resoluções e opções de resposta a essa marginalização diametralmente opostas.
E às longas conversas entre Johnny e Jesse, que não só criam uma enorme proximidade e ligação entre os dois, mas reconstroem as suas formas de verem e agirem no mundo, Mills acrescenta uma série de depoimentos de miúdos de vários locais sobre o futuro num planeta a caminhar para a destruição ecológica e repleto de disparidades económicas, sociais e raciais.
Sempre movido por esses diálogos pertinentes, entre o registo pessoal e os de âmbito coletivo (problemas sociais, políticos, raciais, ambientais), o tal preto e branco que carrega em si uma nostalgia intrínseca, e uma escolha musical eclética e sofisticada, “C’mon C’mon” apresenta-se assim como um dos filmes mais belos e simples do ano, mantendo as marcas claras do cinema de Mills, sempre orientado para conflitos de parentela que necessitam ser resolvidos.

















