Encarnado e reinventado por titãs como Gérard Depardieu, Steve Martin e Miguel Ferrer, o espadachim Cyrano de Bergerac esgrima contra as vicissitudes do mundo fiel a um conceito afiado como um florete: “Eu tenho uma ideia diferente de elegância. Não me visto como um aristocrata, mas a minha moral é impecável. Nunca apareço em público com a consciência suja, a honra manchada, os escrúpulos desgastados ou sem lavar a roupa. Estou sempre imaculadamente limpo, adornado com abertura e independência. Posso não ter uma figura elegante, mas mantenho a minha alma ereta”. O texto é do poeta e dramaturgo Edmond Eugène Alexis Rostand (1868-1989), que se aproveitou da figura fisicamente estrambótica de um autor que escreveu “La Mort d’Aggrippine”, em 1654, para criar uma personagem capaz de sintetizar a dicotomia entre aparência e essência. Dicotomia que se reescreve agora a partir do talento do ator Peter Dinklage, o Tyrion de “Game of Thrones”. Numa atuação possante, ele recicla e reinventa, numa estrutura narrativa cantada, uma das máximas de Rostand: “Todas as nossas almas estão escritas aos nossos olhos”.
Fiel ao conceito filosófico da peça rostandiana da qual é derivada, escrita em 1897, o “Cyrano” protagonizado por Dinklage é um musical regado a adrenalina em duelos de esgrima dignos de “Scaramouche” (1952), mas adaptados à velocidade das batalhas do GOT que fez do seu ator uma celebridade. A longa-metragem conquistou duas indicações ao Globo de Ouro – a serem entregues a 9 de janeiro em Los Angeles – à força de uma sumptuosidade que, em nenhum minuto, abafa o seu humanismo e empenho em celebrar a diversidade. É uma sumptuosidade autoral que demarca o método Joe Wright de revisitar as narrativas clássicas da literatura, do teatro ou mesmo da História.
Aos 49 anos, o cineasta inglês que mais pompa aplica a reconstituições de época chamou a atenção de Hollywood fazendo TV em terras britânicas, em minisséries do início dos anos 2000. A sua capacidade de esmerilhar o plano fílmico, num meticuloso casamento da fotografia com a direção de arte, fez barulho com “Charles II: The Power & the Passion”, nomeado ao Emmy, em 2004. Na sequência, ele foi convocado para renovar o matrimónio do cinema com a prosa de Jane Austen (1775-1817) a partir de “Pride & Prejudice” (2005). Deu à prosa de tónica comportamental da autora uma estrutura de épico, arrancando de Keira Knightley uma atuação seminal. Ele fez por Jane o que o seu ídolo, o britânico David Lean (1908-1991), fez por Charles Dickens (1812-1870) na década de 1940, com “Great Expectations” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Consagrado pelos seus planos apolíneos, Lean foi um formalista que polia o plano até o limite do rigor, fosse em pequenas produções (“Brief Encounter”) fosse em épicos (“Ryan’s Daughter”). É a ele, Lean, que Wright se reporta nos seus trabalhos mais pessoais, como “The Darkest Hour” (2017) ou “Atonement” (2007). O Lean usado em “Cyrano” é o da crónica de costumes, aquele que filmava Dickens.
Com esse Lean em mente, Wright investiga o ethos estratega da França de 1600 sem descuidar da natureza antirrealista dos musicais, adicionando uma camada a mais, ao valorizar cenas de ação que, na peça e em versões cinematográficas anteriores, não passavam de sketches de timbre cómico. As lutas do Cyrano dos palcos mais pareciam quadros de “Os Trapalhões” dos anos 1970. Na releitura de Wright, apoiada na devastadora atuação de Peter Dinklage, elas transformam-se em combates em carne viva. No filme, sai o facto de o herói ter um nariz tamanho XL e entra um debate sobre a condição de que nasceu com nanismo.
Esbanjando carisma num olhar que convida o público a uma imersão na dor da sua personagem, Dinklage cria um Cyrano menos bufão do que o de Gérard Depardieu na aclamada versão de 1990. Preserva, contudo, a dimensão de inteligência, de coragem e de empáfia do espadachim, que não consegue declarar o seu amor por Roxane (Haley Bennett, mulher de Wright, em vigorosa atuação), por vergonha da sua estatura. Quando esta se encanta pelo soldado Christian (Kelvin Harrison Jr., de “The Waves”), Cyrano resolve dar a ele a autoria dos seus poemas, num sacrifício que alimenta a verve romântica da longa-metragem. A banda sonora incandesce ainda mais essa fogueira do desejo, gerando um filme comovente.
É numa montagem taquicárdica – digna de um bom “The Three Musketeers” – que Wright encontra a medida certa de aventura e o mel para sua recriação de herói demasiadamente humano.



















