Ensanduichado no seu lançamento nos cinemas entre “Spider-Man: No Way Home” e “The Matrix Resurrections”, não se vislumbra tarefa fácil para “The King’s Man conquistar grande impacto no seu lançamento neste final de 2021. Porém, isso são temas para a indústria e o estúdio se preocupar, pois o que interessa notar é que este terceiro filme da saga iniciada em 2014, que age como prequela, acaba por ser dos mais satisfatórios dentro do seu mundo perfeitamente disparatado.

A verdade é que esta comédia de espionagem, assinada pelo realizador de “Kick-Ass”, nasceu com um olhar humorístico à franquia James Bond, desenvolveu-se de um jeito muito semelhante a “Men in Black” e agora – na explicação das origens – encontra o espírito de um Indiana Jones (The Last Crusade, parece ser a melhor comparação), mantendo sempre no seu sangue a forma hiperbólica e pouco séria de produção escapista.

Em “Kingsman: O Serviço Secreto” (2014), Harry Hart (Colin Firth) disse a Eggsy (Taron Egerton) como o grupo Kingsman foi formado após a Primeira Guerra Mundial e é isso que assistimos neste novo filme. A ação começa um pouco antes, explicando que na origem de tudo está Orlando Oxford (Ralph Fiennes), um militar que deixou o serviço ativo para se juntar à Cruz Vermelha. Após a morte da sua esposa durante a Guerra dos Bôeres, ele compromete-se a proteger o seu filho Conrad (Harris Dickinson), mas o estalar da Primeira Guerra Mundial muda os seus planos.

Quer Oxford, quer Conrad são colados a eventos históricos reais e uma das primeiras situações que assistimos é da dupla ao lado de um tal de Ferdinand (Francisco Ferdinando) que acaba assassinado nas ruas de Sarajevo, despoletado o conflito global. Claro está, para quem conhece a História da Primeira Guerra Mundial, percebe que tudo é transformado numa farsa, um mundo paralelo onde o grande vilão chega a reunir uma série de figuras históricas – destaca-se o místico russo Rasputino- para fazer um complê para que exista um conflito. Ora numa saga onde já vimos Elton John lutar contra um cão robotizado, Samuel L. Jackson a tentar dominar o mundo a partir de cartões Sim, e Julianne Moore com as mesmas intenções a partir de uma hamburgueria, mexer em figuras históricas e transformar o conflito global numa guerra de primos nem parece exagerado.

Além disso, um dos elementos mais interessantes deste visitar o passado é a natural contenção de alta tecnologia, que nos dois primeiros filmes parecia destinada a superar-se a cada cena e que levava muitas vezes a saga a destacar-se pelas artimanhas pirotécnicas. Assim, ao explicar o princípio do grupo, existe um maior foco no drama da própria guerra, nos “gadgets” existentes naquele período e nas tragédias que vão ocorrendo ligadas ao conflito, contribuindo aqui de sobremaneira as capacidades dramáticas de atores como Ralph Fiennes, Gemma Arterton e Djimon Hounsou, que inflacionam a tragédia que sabemos que a saga gosta sempre de explorar (a saga nunca se cansa de eliminar personagens que achamos fulcrais, transformando-se assim em algo sempre imprevisível).

E tal como em capítulos anteriores, Vaughn alimenta o espectador igualmente com sequências de ação e luta desarmantes, sempre com a banda sonora a aumentar o poder dessas sequências, e o humor – muitas vezes negro – enfiado igualmente nas frames. Por isso, quando observamos Rasputin (num retrato caricatural exageradíssimo) a dançar e a lutar com Oxford, um certo fascínio e os inevitáveis risos chegam até nós, conseguindo-se aqui uma das melhores sequências de toda a franquia.

Por isso, e especialmente para os fãs da saga, “The King’s Man acaba por ser um capítulo bem conseguido. Já todos os outros vão encontrar os problemas do costume em entrar no espírito da saga, ou seja, lidar com todos os disparates e exageros, agora enfiados em paralelo a eventos reais.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-kings-man-satira-de-espionagem-mistura-o-mundo-kingsman-com-factos-reaisUm dos mais satisfatórios filmes "Kingsman" dentro do seu mundo perfeitamente disparatado.