A clonagem é um tema que tem sido constantemente abordado no cinema e televisão, particularmente desde que a famosa ovelha Dolly se transformou no primeiro mamífero a ser clonado com sucesso a partir de uma célula somática adulta, estávamos então em 1996.

Desde aí, o tema tem chegado moldado nas mais diferentes formas, da comédia ao drama, passando pela ação (Multiplicity; A Ilha; Gemini Man; Orphan Black), mas o terreno existencialista inerente à questão não tem gerado a profunda reflexão que se esperaria. Se muitos certamente até já esqueceram – ou deixaram escapar – obras como “Womb”, onde Eva Green tinha de lidar com o filho clonado a partir do marido, provocando uma série de dilemas éticos e morais, “Swan Song” chega em 2021 para relembrar uma experiência que tem tudo de perturbante.

E o “canto do cisne” que vem aqui no título deste produto da Apple chega-nos através de Cameron (Mahershala Ali), um designer gráfico enfermo que não tem muito tempo de vida e que relutantemente decide prolongar a sua vida física condenada através de um clone, que continuará a sua vida com a esposa, Poppy (Naomie Harris), e filho.

O ambiente sinistro da decisão é acompanhado por dúvidas existenciais do clonado e reflete-se em toda a ambiência pesada do filme, sendo a aquisição das memórias e o transporte da inteligência emocional para outro corpo os principais marcadores individuais que questionam mais uma vez a essência do ser humano e o que o torna único. Será que esposa e filho de Cameron notarão a diferença entre ele e o clone? E se tal acontecer, o que faz isso à ideia de unicidade que cada um carrega em si?

Glenn Close é a “cientista” de serviço, preparada com mais um colega ligado à psicologia, e muita inteligência artificial, para fazer a transferência de elementos num “laboratório” que segue a tendência high tech de isolamento em meio rural que tantas vezes faz lembrar o que encontramos por exemplo em “Ex Machina”, onde outras experiências que levantam dilemas éticos e morais estavam a decorrer.

Sombrio e com uma componente romântica associada, que não raras vezes faz lembrar as questões da memória e o amor de uma vida partilhada a dois, prestes a serem apagadas, de “Eternal Sunshine of The Spotless Mind”, “Swan Song” está repleto de elementos tecnológicos futuristas, mas são as emoções que atravessam os tempos, como o amor e a ideia do indivíduo como ser único, que lhe dão relevância. E é nessa entrega de sentimentos que o naipe de atores envolvidos na produção ganha particular relevância.

Mahershala Ali – a duplicar – e Naomie Harris entregam prestações seguras e carregadas de química que nos ajudam a atravessar um mar de questões essenciais sobre o tema da clonagem e à sua aplicação prática, e temos ainda Awkwafina, também ela como uma doente terminal clonada, a contribuir tanto como “comic relief” como elemento ao serviço do drama, para dar um prisma a Mahershala e o espectador do que o espera perante a questão.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
José Raposo
o-canto-do-cisne-de-mahershala-aliSwan Song” está repleto de elementos tecnológicos futuristas, mas são as emoções que atravessam os tempos, como o amor e a ideia de unicidade, que lhe dão relevância e poder para a reflexão