Não é comum, mas acontece, vermos o enorme talento de alguém através de um filme que não se pode considerar de forma alguma bem estruturado ou conseguido, mas que claramente tem nele uma força e potência que nos faz perceber que estamos perante um diamante bruto por lapidar.

É isso que a realizadora e argumentista Janicza Bravo demonstra em “Zola”, longa-metragem onde não faltam ideias fora da caixa; um olhar clínico entre o perturbador, o absurdo e o hilário a questões políticas e sociais sem necessidade de entrar no discurso direto (como aquele plano durante a viagem da bandeira da confederação diz mais que mil palavras); e um visual e energia palpitantes que infelizmente apenas implodem pela sua aparente indecisão do que está a tentar fazer e no que tem de exigir aos seus atores.

Para começar, Bravo – que já trazia na bagagem uma série de curtas e uma longa-metragem (Lemon) carregada de tiques pessoais que a consagram como artista visual – tinha à partida uma tarefa árdua, mas notavelmente livre para criar.

Como transformar um tweet viral e as suas  interações num filme? Foi nisso que ela se envolveu neste “Zola”, partindo de uma publicação de 2015, assinada por Aziah “Zola” Wells, que falava da sua recente viagem à Flórida com uma mulher que acabara de conhecer. Segundo Zola, Jéssica (renomeada Stefani no filme) persuadiu-a a entrar numa viagem para a Flórida com a promessa que havia muito dinheiro para ganhar em clubes de striptease e dança do varão junto de clientes ricos em Tampa. Porém,  tudo isso foi um esquema que a manteve ligada a um trabalho de prostituição per se, sob vigilância constante e ameaça de um proxeneta.

Se inicialmente “Zola” segue a rotina das histórias contadas a olhar para trás, numa espécie de “Era uma vez…”, versão 2021,  e inicia o seu percurso dramático em jeito road movie com  recurso a uma linguagem videográfica assumidamente inspirada nas potencialidades dos dispositivos móveis, potencializada pela geração Youtube e Instagram (difícil não lembrar de Sean Baker e o seu “Tangerine”), quando chegamos à Flórida o tom do filme ganha contornos pulp, com personagens nas margens da sociedade entregues a pequenos crimes que se tornam em gigantes (mais Roman Coppola que Quentin Tarantino). É nas suas opções no texto (diálogos), imagens e som, pensando sempre na máxima que “estética é narrativa”, que Bravo parece patinar sobre aquilo que efetivamente nos quer oferecer. Será esta uma história para levarmos minimamente a sério, até pela temática que envolve lenocínio, ou é apenas puro entretenimento caricatural para  fazer like e não pensar mais nele? 

Seja qual for a sua “missão” ou objetivo, a verdade é que as personagens que inicialmente a cineasta nos apresentou com formas reais transformam-se em meras atrações circenses movidas por estímulos hiperbólicos e artificiais. E essa artificialidade, ainda que com muita sátira e ironia no seu DNA, ressoa ainda mais nos espectador depois de Bravo optar pela dinâmica “Rashomon” para mostrar uma outra perspetiva do que nos tinha contado até então. 

É assim que no meio de um fait divers, usado e abusado para essencialmente mostrar ambições e dotes artísticos, extraímos principalmente o talento da realizadora, o qual precisa apenas ser calibrado e melhor direcionado para nos servir um objeto consistente e que sabe o que quer.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
José Raposo
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