Cineasta da procura e do encontro com o amor na juventude, Eliza Hittman começou em “It Felt Like Love” (2013) um pequeno mas precioso tripitico, dando assim início a uma carreira que tem demonstrado uma sensibilidade comovente à presença e ao corpo dos atores. “It Felt Like Love“, “Beach Rats” (2017) e “Nunca Raramente Às Vezes Sempre” (2020) são três filmes que convidam a uma visão de conjunto sobre aquilo que de mais pessoal pode haver na construção de uma identidade: a forma como nos relacionamos com os outros, mas também uma interrogação sobre o nosso lugar no mundo a partir da beleza e do sexo. Mais próxima do universo intimo de uma realizadora como Céline Sciamma que do rasgão pop dos filmes de Harmony Korine, Hittman desenha nesta primeira longa metragem um pequeno esboço, um ensaio de uma linguagem cinematográfica que irá reclamar como sua nas obras que se seguirão: uma cinematografia onde os grandes planos sobre rosto são como uma janela para uma respiração interior, uma mise-en-scène que aproxima a atmosfera do filme da pulsão própria do ator, muitas das vezes estreantes quando não mesmo amadores. Mas de que amor nos fala afinal este “It Felt Like Love“?

It Felt Like Love?” começa num local que irá ser recorrente no cinema da realizadora norte-americana, junto a uma praia, num desses verões intermináveis em que o tempo parece suspenso. O filme tem o ritmo do desejo de Lila (Gina Piersanti), uma adolescente à procura do seu primeiro amor. Com um minimalismo que nos dá a ver o essencial, o corpo narrativo do filme tem a forma de uma amizade que une Lila a Chiara (Giovanna Salimeni), sua grande cúmplice e amiga inseparável nos momentos de maior aperto. Mais experiente e habituada aos olhares e atenção dos rapazes, Chiara é em igual medida motivo de admiração e ciúme, numa dinâmica que, se por um lado se pode dizer que atravessa praticamente todo o filme, nunca apaga o que de mais puro pode haver numa amizade.

Numa das sequências mais memoráveis, Hittman introduz uma pequena volta narrativa: é precisamente a festa de aniversário de Chiara, numa sequência filmada com um distanciamento que se diria gélido e que funciona como contraponto ao ambiente geral de celebração. E é também aqui que o puxão no nervo social do filme mais se faz sentir, justamente pela forma com a dinâmica familiar de Chiara choca com o meio em que Lila se move, como se a ausência dessa rede de apoio a prendesse a outro destino. É aliás um dos momentos mais desconcertantes de todo o seu cinema, sobretudo pela forma como parece jogar contra um realismo que partilha muitas afinidades com a textura do documentário, um corte que se faz sentir fundo e lancinante nas breves coreografias dançadas pela família e amigos.

Mais do que propor uma visão idílica e romantizada do amor na adolescência, o cinema de Hittman convida-nos a todos a uma interpelação sobre o sentido dessa busca constante que procura de alguma forma apaziguar o grande vazio que, por mais que esteja sempre em pano de fundo, nunca deixa de cercar e asfixiar o filme. Com uma sensibilidade delicada perante o pulsar erótico da adolescência, “It Felt Like Love” é também uma obra que ajuda a olhar para o amor com uma emoção que se diria espiritual: como se a entrega ao outro fosse a descoberta de si mesmo.

Um filme a ver, uma obra a acompanhar.

Pontuação Geral
José Raposo
it-felt-like-love-a-procura-do-amor"It Felt Like Love" é também uma obra que ajuda a olhar para o amor com uma emoção que se diria espiritual