Considerado um lugar sagrado para os aborígenes muiscas, associado às forças divinas da criação e à origem do homem, um domínio onde os humanos não deveriam entrar, o páramo de Sumapaz, na Colômbia, é a chama de encanto e mistério, mas também de medo,neste ‘A Vanishing Fog‘, um objeto inclassificável, tão espesso como criptico e alegórico, que o realizador e argumentista Augusto Sandino levou até Tallinn para a competição principal.

É um regresso do colombiano com nome de revolucionário nicaraguense à Estónia, ele que apresentou no mesmo certame, em 2016, o igualmente marcante, mas radicalmente diferente na estética e tom, “Suave El Aliento”.

Difícil de categorizar dentro das formas rígidas e padronizadas do cinema e dos seus géneros , ‘A Vanishing Fog‘ é simultaneamente um drama, um filme fantástico e um ensaio surrealista que no Páramo de Sumapaz nos dá a conhecer a história de F, um homem de poucas (ou nenhumas) palavras que regressa à região para cuidar do pai, um guarda florestal que foi perdendo capacidades após a morte da esposa.

O relacionamento dos dois com o páramo, ora via sequências onde impera o realismo, ora outras de caráter mais onírico, serve como base para entregar ao espectador um olhar cuidado e nunca redutor à radical discrepância na relação do homem com a natureza, sendo um bom exemplo disso os bombardeamentos do governo colombiano contra as milícia de esquerda que controlam a região que se ouvem e observam constantemente.

F, interpretado pelo ator não profissional Sebastián Pii, portador da síndrome de Hallerman-Streiff, algo que lhe dá uma aparência muito particular (só 200 pessoas no mundo sofrem desta condição), contribuiu genuinamente para o tom nebuloso e difícil de decifrar do filme, o qul nos presenteia com várias sequências surreais onde não faltam mesmo umas escadas rolantes para o céu, ou uma pequena nave pronta a levantar voo.

No meio de tudo o que Sandino oferece, sobressai ainda uma forma de fazer cinema muito sensorial, isto num objeto lotado de simbolismos com múltiplas explicações nunca encerradas. Tudo isto dá à produção uma forma e aparência de multicamadas prontas serem descobertas, onde uma história pessoal, outra coletiva e outra espiritual e mística dançam poeticamente na grande tela, oferecendo ao espectador momentos de rara beleza.

E nesse tratamento estético (e narrativo) extremamente cuidado, percebe-se que a pintura e fotografia são claramente chaves de inspiração, destacando-se a cinematografia de Gio Park e a montagem do próprio Sandino, os quais sequestram a nossa atenção do início ao fim, com toda a mestria de quem está a desfiar um novelo que se mostra inacessível de desemaranhar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-vanishing-fog-entre-o-real-e-o-surreal-no-paramo-de-sumapazFilme espesso, criptico e alegórico, cuja forma e conteúdo se mostra sempre inacessível de desemaranhar.