Ninguém realmente pediu, ou precisava, de uma sequela de “Os Caças-Fantasmas” (1984), comédia original de Ivan Reitman que teve uma sequela mais fraca anos depois (Os Caça-Fantasmas 2, 1989), e uma versão no feminino mais recentemente (Caça-Fantasmas, 2016), a qual, além além de não acrescentar nada ao conceito, era muito pobre na sua concretização.
A verdade é que o novo filme está aí, quer queiram quer não, e a palavra “legado” no seu subtítulo em Portugal (Afterlife, no original) nunca fez tanto sentido, não apenas porque do pai Ivan Reitman passamos para o filho Jason Reitman na realização, mas porque são raríssimos os filmes e séries atuais que organicamente se sentem como verdadeiros objetos dos anos 80, do visual à narrativa, passando inevitavelmente pelas personagens.
Sim, é verdade, não faltam tentativas de homenagear ou buscar o espírito das obras dessa década, como o fez, por exemplo, o mega sucesso “Stranger Things”, que curiosamente “empresta” a este novo “Ghostbusters” o protagonista, Finn Wolfhard. Porém, aqui, é praticamente tudo que nos leva para essa era, seja o tradicional núcleo familiar com ausência da figura do pai (algo que Spielberg tornou imagem de marca), sejam os efeitos visuais cheesy, os grupos de crianças preparadas para aventuras fantásticas (à la Goonies), os sentimentos de “perda” (família ou amigos), ou até pequenas criaturas, aparentemente inofensivas, que se revelam o inferno (pense-se em Gremlins).
Passados muitos anos depois do célebre ataque do Homem Marshmallow em Nova Iorque, a ação volta-se agora para o campo, onde Callie (Carrie Coon) e os dois filhos (Finn Wolfhard e Mckenna Grace) dirigem-se depois de Dr. Egon Spengler (Harold Ramis), um dos Caça-Fantasmas originais, ter falecido. Afastada do pai há largos anos, pois este abandonou a família, Callie vai encontrar na casa paterna um mundo novo que nos vai conduzir a um universo prestes a ser abalado pelos mesmos vilões do primeiro filme. E é nesse espaço rural isolado que vamos também encontrar um professor (Paul Rudd) intrigado com abalos sísmicos na área (lembram-se de “Tremors”?) e que juntamente com a pequena Mckenna Grace vai tentar perceber o que se está a passar.
Repleto de outras referências cinematográficas (onde nem falta “Cujo”), “Os Caças-Fantasmas: O Legado” é um pedaço de nostalgia que vai além do filme-homenagem. É um objeto que literalmente se cola ao original, respeitando-o na sua continuação, e sempre implantado no espírito uma era que conseguiu ser transportada para os novos tempos de uma maneira sincera e honesta, e não apenas comercial (que obviamente também o é).
Um destaque particular para o casting acertado e repleto de química, onde principalmente Carrie Coon e Paul Rudd provam que, seja na comédia ou drama, ambos têm as armas necessárias para criar figuras empáticas que facilmente se conectam com o espectador. E nota máxima para a pequena Mckenna, cujas tentativas de humor frequentemente (seco) trazem um acrescento de gargalhadas que encaixam como uma luva.

















