Depois de ter feito furor no circuito independente norte-americano (contando com nomeações e prémios nos Independent Spirit Awards) com “Sócrates”, a história de um jovem que depois da mãe morrer tem de sobreviver na realidade da miséria com o preconceito de ser homossexual, Alexandre Moratto volta a colaborar com o ator Christian Malheiros para mais uma vez pegar em problemas sociais contemporâneos que atormentam o Brasil (e não só).
Filme sobre o tráfico de seres humanos, num registo que faz lembrar a dinâmica dos filmes clássicos sobre a escravatura, Moratto volta a ter pertinência na discussão de um tema social problemático, mas mais uma vez parece demasiado contido e limitado na arte de fazer cinema na sua abordagem ao realismo social. A verdade é que o filme, comissionado pela Netflix, volta a ter nos seus atores a verdadeira força para contar uma história reciclada que frequentemente precisa de afirmação para o espectador acreditar que, em pleno século XXI, ainda existe trabalho escravo com a conivência da própria sociedade, dos empresários, dos políticos, que não questionam, por exemplo, como é possível um artigo ser tão barato sem que exista exploração laboral por trás do negócio.
Em “7 Prisioneiros“, Rodrigo Santoro é o “patrão”, um homem que, com um esquema bem montado, contrata pessoas do interior do Brasil e cria uma verdadeira ilusão para o futuro destes homens, os quais estão sedentos por um emprego longe da roça. Quando eles chegam e começam a trabalhar na sucateira rapidamente descobrem que tudo o que lhes foi prometido era falso e que afinal têm de trabalhar continuamente para pagar as alegadas “despesas” que o patrão teve e tem com eles.
Mateus (Malheiros) é um desses homens enganados, mas progressivamente vai-se tornando no capataz do próprio negócio, virando-se contra os colegas que com ele chegaram a planear a fuga. O arco narrativo, repleto de ambiguidades e transformações, mergulhando no trauma e no instinto de sobrevivência, de Mateus é o que de melhor existe em “7 Prisioneiros”, um thriller social com o coração no lugar certo, mas a cabeça ainda muito enquadrada numa linguagem cinematográfica muito pobre e de interação e diálogos demasiado televisivos.
Santoro, que diz que se sentiu “sujo” em todos os momentos que viveu a sua personagem, entrega uma prestação de valor, servindo ele mesmo como uma cobaia sociológica à figura do pobre que foi deixando a sua condição através do crime, pois essa parecia ser a única verdadeira saída possível. E na personagem de Santoro revemos igualmente a de Malheiros, cujo caminho é pautado pelos mesmos dilemas e contradições de sobrevivência.

















