Depois de conquistar o 11º Festival de Cinema La Roche-Sur -Yon, em França, “Louloute” de Hubert Viel chega ao Festival de Mannheim-Heidelberg 2021, na Alemanha, com a mesma dose de nostalgia, bucolismo, ternura e poesia, questionando ainda – qual ensaio sobre a memória, qual quê- a diferente perceção e interpretação das coisas entre crianças e adultos, num vai e vem entre dois tempos: o agora, onde Louise (Erika Sainte) é uma professora “despassarada”, capaz de adormecer à chuva; e os anos 80, quando vivia numa quinta com os pais, os quais carinhosamente a chamavam de Louloute. O gatilho para essa viagem aos tempos idos é quando Louise se cruza com Dimitri, um novo professor na escola onde trabalha e que, na sua infância, foi seu namorado.
É pelas linhas do naturalismo e bucolismo, regado muitas vezes com pitadas de surrealistas, especialmente quando entramos em campo onírico, que “Louloute” se enreda, qual livro ilustrado que nos cativa (e faz recordar) de como os problemas adultos (crises económicas que geram problemas sociais e familiares) eram vistos e “resolvidos” pelas crianças de forma tão ingénua como pura. E tudo é transportado até nós através de uma permanente ambivalência das memórias (imagens e palavras), como aquele momento em que , apercebendo-se da nova concorrência que a sua quinta de tradição agroalimentar enfrenta, Louloute decide partir numa aventura para encontrar um aquecedor para uma vaca.
Nos últimos tempos, o cinema francês que entra pelo mundo rural a dentro tem executado abordagens consideravelmente francas e arriscadas para mostrar as dificuldades que muitos agricultores encontraram nas últimas décadas devido à concorrência e necessidades tecnológicas que foram incapazes de acompanhar. Basta pensar nos ótimos “Petit Paysan”, “Au nom de la terre” e “La Terre des hommes“, os quais entre drama e o thriller ofereceram perspetivas dolorosas dos novos tempos de sobrevivência no mundo agrícola.
“Louloute” pouco tem a ver com eles, não na fuga à pressão que a atividade primária encontra na economia moderna, mas sim na delicadeza de, acima de tudo, ser um exercício de memória a tempos duros agora são olhados para trás como dos melhores das nossas vida. O resultado final é uma comédia singela e melancólica sobre o fim de uma era e as dificuldades em aceitar isso. E ao fazer tal, traça-se assim também o retrato de uma geração cada vez mais acompanhada e cada vez mais só.

















