Aguardava-se com expetativa o que o talento demonstrado por Chloé Zhao em “Song My Brothers Taught Me”, “The Rider” e “Nomadland” poderia trazer para o mundo cinemático e formulático da Marvel nesta adaptação para o cinema da história e personagens que Jack Kirby criou em 1976.

Habituada a lidar com personagens que normalmente habitam as margens da sociedade, e sempre com um olhar documental construído sobre narrativas de ficção, Zhao entra agora num universo “bigger than life”, construindo um objeto onde tudo é excesso. É que onde antigamente encontrávamos contenção, austeridade, contemplação e reflexão que se sentiam orgânicas, agora encontramos fogo de artifício e facilitismo, não apenas nas resoluções tomadas a partir de dilemas morais, sempre resolvidas às três pancadas, mas na excessiva exposição e dependência sentimental que transforma todo um leque de conflitos universais aqui presentes como resultado de crises afetivas.

Esta história de seres cósmicos, conhecidos como Celestiais, que criaram um grupo de indivíduos super-poderosos conhecidos como Eternals (Eternos), bem como os vilões, conhecidos como Deviants, é toda ela pastiche, que começa por inspirar-se dentro do seu próprio mundo, sempre com a “moral superior”, que reflete tudo o que é a América pensa que é, no seu núcleo.

Veja-se por exemplo os temas que são colocados em jogo, como colonialismo e imperialismo, deuses e homens, livre arbítrio e evolução. Todos estes são temas caros e urgentes de explorar, e que especialmente nas mãos de uma cineasta como Zhao poderiam ganhar uma observação e meditação profunda, mas a verdade é que a máquina de entretenimento da Disney o mais que consegue fazer é trazê-los à tona através de uma espécie de “Big Brother” planetário, onde as paixões e amores não correspondidos dentro do grupo de Eternos move tudo.

E tudo isso é apresentado ao espectador por vias do melodramatismo (é um filme todo ele carregado de melodias+drama) e ação espampanante, mas repetitiva, que trazem um peso insuportável de sentimentalismo primário (umas vezes parece uma novela mexicana, outras um drama coreano) onde se exigia assertividade e pragmatismo para produzir qualquer espécie de reflexão. 

Com uma dinâmica e personagens que demasiadas vezes nos remetem para “X-Men” (até nos poderes dos seus heróis), inserido num universo que frequentemente questiona o poder autodestrutivo da humanidade, “Eternos” não é mais que um lado de B de “Avengers”, ainda mais incapaz de ser consistente em qualquer uma das suas vertentes, sejam elas as interpretações (algumas sofríveis), o espetáculo da ação (ou falta dele), o humor (demasiado infantil e terreno), ou a energia do ritmo (profundamente desritmado). 

Para piorar, todo este “combo” sentimentaloide vem agarrado a duas horas e meia que se sentem quatro ou cinco, resultando assim num dos mais fracos e dispensáveis resultados de um universo cinemático – que parece ter entrado em “loop” – onde a ausência de frescura é mais que evidente.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
eternos-descalabro-cosmicoOnde antigamente encontrávamos contenção, austeridade, contemplação e reflexão que se sentiam orgânicas, Chloé Zhao agora devolve fogo de artifício e facilitismo