Mais que fazer cinema como quem faz música, Edgar Wright tem nos últimos anos agido como um DJ, criando sucessivas mixtapes (um pouco como James Gunn e até Quentin Tarantino) para a partir delas construir histórias e narrativas preenchidas visualmente e sonoramente com olhares nostálgicos a eras e a toda a cultura pop associada a ela. Era assim em “Baby Driver” e é assim em “Last Night in Soho”, um objecto que fetichiza os anos 60 londrinos para nos dar uma história de fantasmas do passado que ecoam ainda hoje numa terceira geração de mulheres.

Desta vez a base de toda esta “mixtape” que Wright criou é uma estilista aprendiz nos tempos atuais, Eloise (Thomasin McKenzie), uma fã dos anos 60 propensa a visões depois de um trauma associado à morte da mãe por suicídio. Natural da Cornualha, ela vai para Londres com tanta ingenuidade como sonhos de triunfar no mundo da moda, entrando para uma escola onde vai ser confrontada com a velha dinâmica de jovens populares e citadinos contra “nerds” do interior.

Será num quarto que aluga para viver, enquanto estuda e trabalha, que Eloise vai estabelecer uma conexão – singular e sobrenatural – com o Soho dos anos 60, descobrindo através dos olhos da sedutora Sandie (Anya Taylor-Joy, uma aspirante a cantora que trabalha para um empresário duvidoso, espectros da misoginia e do vigilantismo.

A partir de uma banda-sonora eclética recheada de temas para redescobrir de uma era apresentada com toda a nostalgia estilistica que o cineasta vai implantar códigos do terror para trazer um ensaio feminista e uma alegoria da loucura que muito deve aos filmes de fantasmas e assombrações em locais marcados pela tragédia. E é aqui que as características de Wright como DJ no cinema contemporâneo ganham distinção, com a fotografia e a excessiva carga musical a entregarem um set de suspense da velha guarda que derradeiramente culmina num giallo previsível sem originalidade. 

É certo que existe alguma maestria na forma como o britânico amarra tudo num objeto cinemático (sim, é cinema), mas mais que a composição de uma nova peça ou ter o dom de orquestrar um objeto de forma precisa, onde cada nota nunca falha o seu tempo, Wright entrega uma mixórdia entre o saudosismo e a crítica social, onde sobressaem acima de tudo formas fetichizadas para produzir entretenimento cheio de estilo e quase só isso.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
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