Não são raros os documentários que evocam o pós-detenção, olhando para o passado atrás das grades, falando-se de sobrevivência, crime e até redenção. O próprio cinema e televisão espanhola tem conseguido enormes sucessos nessa viagem às cadeias (basta lembrar “Cela 211” e “Vis a Vis”), produtos assentes no espetáculo e uma tensão permanente onde não faltam situações rebuscadas para acentuar cliffhangers de um episódio para outro. Outros produtos mais recentes colocam o dedo na ferida do terrorismo da ETA (“Maixabel”, ainda este ano) e das relações com as vítimas, mas raros são aqueles que se apresentam apenas como um exercício de memória e de reflexão pessoal, longe de qualquer análise social ou política, embora possamos tirar as nossas próprias ilações.
Foi na noite de 4 de outubro de 2007 que várias carrinhas da Polícia Nacional da Espanha pararam o carro em que Arantza Santesteban viajava com outras pessoas. Foi lhe dada ordem de prisão sob a acusação do crime de terrorismo devido à atividade política num partido declarado ilegal pela Lei dos Partidos Políticos do ano de 2002.
Esse momento marcou o início de uma nova vida da cineasta de Pamplona, que nos vai contando a história da sua detenção enquanto grava os relatos para um pequeno gravador, entre o desabafo e registo do que passou e sentiu.
No total foram 918 noites em que esteve detida, aqui relatados com ajuda de fotos impressas e outras imagens, onde as descrições de situações e de pessoas com quem conviveu não têm qualquer estrutura narrativa definida ou estão reduzidas a três atos. Momentos de intimida dos tempos correntes, seja através de uma cena de sexo calorosa, ou uma dança numa discoteca, entralaçam-se com os relatos do passado, e tanto servem como contraste ou conexão, ganhando o sentido de liberdade uma outra dimensão.
Por tal, “918 Gau” é mais uma exploração de formas que procura acima de tudo não reforçar estereótipos no que diz respeito aos presos políticos, mas igualmente às formas típicas de contar uma história. E ao contar o seu passado, a realizadora fala também do seu presente e naquilo que se tornou, apresentando um manifesto humano mas também cinéfilo, que nunca se rende ao evidente.

















