Habituado a lidar com temas sensíveis da política pós-soviética, Vitaly Mansky agarra agora na oportunidade de entrevistar Mikhail Gorbachev para construir um retrato pessoal em torno de um homem nos seus últimos momentos em vida (ele próprio o diz), mas também para mais uma vez contar e criticar o antigas repúblicas soviéticas, particularmente a Federação Russa, se tornaram depois da Perestroika.
Se no seu documentário “Putin’s Witnesses” os primeiros momentos são passados no lar de Minsky, na noite de passagem para o século XXI, onde assistimos através da TV, Boris Yeltsin a passar o testemunho do governo a Putin, neste mesmo “Gorbachev.Heaven” o realizador diz ao seu entrevistado que a liberdade que este ajudou a conquistar terminou na Rússia quando essa transição de poder ocorreu no pós- Yeltsin.
Amado e respeitado na Europa e por algumas repúblicas da antiga URSS, como a Letónia onde Mansky (crítico acérrimo de Putin) se exilou, Gorbachev nunca conseguiu sentir isso mesmo na sua pátria, onde é claramente uma figura histórica frágil. E mesmo que timidamente diga que sim, da sua importância e como os seus compatriotas o veem, Mansky relembra os famosos 0,5% que conseguiu nas eleições presidenciais de 1996, nas quais Yeltsin foi eleito, mostrado um olhar de persona non grata no país de uma figura fragilizada como político.
E frágil é também a sua condição física, atualmente com 90 anos, bem como a sua força psicológica quando se refere que a morte da sua esposa, Raisa, deixou-o sem grande razão para continuar a viver. E mesmo cercado de pessoas que o ajudam no dia a dia, sente-se em todo o documentário de Mansky, filmado maioritariamente na casa onde o antigo líder agora vive, uma enorme solidão e tom soturno.
Com “Gorbachev.Heaven”, Mansky vai bastante mais longe e é muito mais incisivo que por exemplo “Meeting Gorbachev” de Werner Herzog, até porque apesar do famoso político fugir por demasiadas vezes às respostas concretas que Mansky lhe pede para responder, existe sempre uma graça particular, carisma e até charme nessas mesmas deflexões, que trafegam por toda a história do comunismo na URSS (vai-se de Lenine a Gorbachev, passando por Estaline, entre outros), até ao presente, na Rússia, onde Gorbachev está entregue a um isolamento e Putin é uma figura omnipresente (brilhante a cena da passagem do ano).
No final, e sempre com um tom de epíteto, Mansky consegue mostrar ao espectador o retrato de um homem que realmente mudou o mundo, mas que não é visto por todos os lados da História com os mesmos olhos, carimbando assim a sua própria solidão, um isolamento não só físico mas também ideológico.

















