Três anos depois de se ter estreado na realização nos EUA com “Galveston”, a francesa Mélanie Laurent volta a assumir a liderança de um projeto, desta vez na forma de uma peça de época situada no final do século XIX e que funciona como a primeira longa-metragem francesa produzida pela Amazon.

E Laurent não se limitou a realizar este “Le Bal Des Folles”, já que assume igualmente um papel importante na história e adaptou o romance de Victoria Mas – o qual mistura personagens da vida real e ficcionais no cenário perturbador de uma instituição mental, o Hospital La Pitié Salpétrière, em Paris, administrado pelo famoso Dr. Charcot (Grégoire Bonnet).

No centro de tudo está Eugénie (Lou de Laâge), uma jovem abastada que tem o dom/fardo de falar com os mortos, algo que a vai colocar sob atenção especial da família, cabendo ao pai a decisão final da institucionalizar no célebre hospício, no qual será sujeita a inúmeros tratamentos experimentais e nada convencionais no que concerne à saúde mental.

A problemática da institucionalização de mulheres mal diagnosticadas em alas de psiquiatria não é tema novo na literatura nem no cinema e basta lembrar outra peça de época – relativamente famosa – que abordava a mesma situação, já no século XX, nos EUA: “Vida Interrompida“, com Winona Ryder e Angelina Jolie no elenco. 

Na verdade, basta uma boa pesquisa na Internet sobre o termo “histeria” para entender que era prática comum institucionalizar figuras no feminino que saiam da normatividade que a sociedade patriarcal lhes impunha. E é essa sociedade patriarcal o grande foco do filme, primeiro através das imposições sociais a que personagem de Eugénie é sujeita (as suas ambições poéticas são esmagadas pela vida que lhe está destinada), depois pela sua institucionalização a pedido do pai (fala com os mortos), e derradeiramente a sua permanência no local pelo diagnóstico imposto pelo líder do La Pitié Salpétrière.

Aliás, quando Eugénie chega à instituição vai encontrar nela dezenas de outras mulheres mal diagnosticadas, muitas das quais entretanto afetadas psicologicamente pelos tratamentos experimentais a que foram sujeitas e cujo estado mental ronda a insanidade.

Fora a temática urgente de reflexão, até porque vivemos tempos em que facilmente rotulamos de “loucos” qualquer um que vá contra as imposições da maioria, “Le Bal Des Folles” é bem filmado, mas sem qualquer arrojo ou distinção na sua construção cénica e na fórmula narrativa. Seja num filme de super-heróis ou assente em personagens reais, as imposições da escrita, especialmente nos grandes estúdios e plataformas de streaming, levam sempre a uma estrutura que raramente sai da esfera de heróis e vilões clássicos. Isso mesmo sente-se aqui quando a personagem de Emmanuelle Bercot, uma temível enfermeira, impõem-se no enredo como a derradeira barreira e a mais difícil de ultrapassar, iniciando uma confrontação com a entretanto transformada em heroína Mélanie Laurent (também ela uma enfermeira), a qual aos poucos e poucos vai acreditando que a personagem de Lou de Laâge tem mesmo poderes que a permitem falar com os mortos e que, por tal, não merecia estar institucionalizada.

Paralelamente a esta história central, onde a alegada “ciência” ditava as regras contra a superstição e espiritualidade seletiva (visões e aparições religiosas são aceites pela sociedade), vamos ainda descobrindo outras mulheres internadas erradamente, vagueando a cineasta por entre elas sem nunca explorar aprofundadamente as suas histórias. No fundo, todas elas servem para acentuar a injustiça para com a protagonista e mostrar a discrepância de poder entre homens e mulheres na época retratada.

Laurent filma tudo entre o drama e o suspense, tomando a decisão de nunca dar um corpo ou rosto aos mortos que alegadamente Eugénie vê e fala, deixando assim um pouco de abertura e ambiguidade ao seu verdadeiro estado mental. Mas essa omissão é sol de pouca dura, um mero rebuçado entregue ao nosso poder de sugestão, pois mais importante que qualquer análise particular parece ser o retrato da época, tornando este num filme acima de tudo ativista (e feminista).

Pontuação Geral
Jorge Pereira
le-bal-des-folles-melanie-laurent-e-o-inferno-psiquiatrico-das-mulheresLaurent filma tudo entre o drama e o suspense, tendo como objetivo final mostrar o passado negro da psiquiatria e como esta serviu para institucionalizar várias mulheres que apenas e só escapavam à normatividade