Responsável por uma receita estimada em 3,6 mil milhões de dólares, relativa às bilheteiras de todos os filmes que realizou desde o sucesso inesperado de “Saw – Enigma Mortal” (2004), James Wan tinha todas as razões (de mercado, não artísticas) para se manter 100% focado na seara das longas-metragens milionárias e não se dispensar em projetos de custo baixo, sem estrelas. No entanto, não é esse o perfil de “Maligno” (“Malignant”) – mistura de “Suspiria” com “Sisters” de Brian De Palma – que marca a volta do australiano de descendência malaia e chinesa após o fenómeno pop “Aquaman” (2018).
A inglesa Annabelle Wallis (numa inspirada atuação) é sua protagonista e ninguém de alto quilate a reforça no elenco. Tudo soa meio B, artesanal, como se fosse um giallo ambientado em Seattle. Um giallo de autor, só que destituído das trucagens habituais do cinema de grandes orçamentos dos Estados Unidos. Parece um exercício de libertação, uma volta às raízes de “Saw”, até no seu perfil slasher de vísceras a saltar pela tela, em jorros de sangue. E ainda há criação de um “monstro” tão original quanto era Jigsaw: o assassino Gabriel, que lembra a psicopata de “Dressed to Kill” (1980), deixando De Palma nas veias.
Produtor de prestígio, responsável por supervisionar rentáveis derivados da sua própria obra autoral, como “Annabelle” (2014) e “A Freira” (2018), Wan quebrou com os protocolos ditos operacionais da indústria que o acolheu. É praxe no cinema ver realizadores que ascendem ao sucesso nas engrenagens de Hollywood, no comando de uma superprodução, optarem, na sequência da sua consagração, por filmes tão ou mais caros, de modo a verem nessa aposta em orçamentos gigantes uma casta onde se encaixarem. É como se o encaixar no ambiente dos blockbusters os obrigasse a lá ficar, olhando com certo desprestígio a circulação por projetos de baixo custo. O mesmo se passa com realizadores estrangeiros que, uma vez “importados” pelos EUA, recusaram a voltar a filmar na sua pátria natal, considerando esse gesto uma involução. São posturas que jogam a ambição estética para um segundo lugar em nome de um padrão de excelência industrial. Pouca gente ousou desafiar essa norma, como foi o caso da polaca Agnieszka Holland, do catalão Jaume Collet-Serra e, agora, de Wan. Ele não virou marca por se ajustar a padrões e, sim, por transcendê-los, sem desrespeitá-los. Daí fazer “Maligno” como filme B.
Após um prólogo confuso, de aparência descuidada, sugerindo um erro de percurso de um artesão de géneros com o capricho de um ourives, “Maligno” vai se revelando uma jóia do terror, homenageando tradições (sobretudo a do horror italiano, na paleta de cores e na trilha sintetizada de Joseph Bishara).
Temos debates sociais relevantes (a imperdoável ocorrência da violência contra mulheres; o abandono de crianças; os maus tratos em instituições médicas) e temos a cartilha de jump scares seguida nos moldes do que “Halloween” (1978) ensinou. A sua lição, lá no fim dos anos 1970, foi: certos tempos históricos não comportam espaço para a sugestão, como fazia Hitchcock, exigindo uma exposição gráfica, quase pornográfica do que há de aterrorizante, para disputar com as agruras do real.
Com o seu olhar vítreo sempre na mira da fotografia saturada de Michael Burgess, Annabelle Wallis encaixa no projeto estético de “Maligno” como Jessica Harper se encaixava com fluidez em “Suspiria”. Madison Mitchell, a sua personagem, começa o filme abalada pela bestial convivência com um marido agressivo, somando sucessivos abortos no seu plano de ser mãe. Mas o Mal ronda a sua alma, mais perto do que ela imagina, de uma maneira intersticial, que ela não pode supor, como acontecia com a bailarina interpretada por Harper no filme culto de Argento. O martírio de morar com o inimigo é interrompido quando a casa de Madison é palco de uma manifestação aparentemente sobrenatural. O seu companheiro é morto brutalmente por algo que se manifesta como uma entidade, gerando estática, interferindo nas ondas de som com sua força, abrindo portas do frigorífico tal e qual um Poltergeist. Mais adiante, o que parece ser um espírito brincalhão ganha corpo, com um rosto de monstro, mas com uma silhueta que evoca os assassinos elegantes dos giallo, como em “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970). É esse o arquétipo do tal Gabriel: um Jason de bom gosto. Um Jason cheio de destreza, que mata com movimentos rápidos, fazendo de um troféu a sua arma. Ao seguir os crimes dele, que deixam a metafísica e se corporificam em coágulos derramados, Wan vai, aos poucos, verticalizando-se na psique de Madison e expondo os traumas que estão na sua génese familiar, ambiente onde o cineasta encontra a argamassa para seus estudos sobre o lado mais assombroso de nossa essência.
Há famílias de todas as formas na obra de James Wan, sobretudo clãs quebrados por alguma tragédia, ou pela presença das trevas. É o objeto a partir do qual ele virou um especialista no universo das trevas, responsável pelas duas franquias que melhor assombraram as duas últimas décadas na seara do terror (a já citada “Saw” e “The Conjuring”. Mesmo na hora de reinventar um vigilante superpoderoso das BDs, como Aquaman, ele transformou o que era para ser mais um protótipo de “Avengers” numa “Brumas de Avalon”, sobre intrigas de clã, com misticismo e metafísica.
Apoiado na epilética montagem de Kirk M. Morri, Wan faz de “Maligno” uma reflexão sobre a Fera que mora na Bela, sobre o lobo do humano, sobre o inferno que todos carregamos, dando a Madison uma dimensão existencial espaçosa, cheia de sombras e repleta de charnecas lamacentas. Os heroísmos periféricos, representados na ótima dupla de policias Regina (papel de Michole Briana White) e Kekoa (o ótimo George Young), são descartáveis, como se via no giallo. O que interessa aqui é a imersão de Madison em si mesmo. E a nossa imersão em um filão narrativa que, como Wan confirma, é cheio de riquezas. A mais singular dela é o facto de ele nos dar uma personagem que fica na nossa cabeça para além do filme, que é o caso de Gabriel.
















