Verde é a cor da esperança, da ecologia, dos movimentos e ativismos, dizem por aí, mas no bombástico “Nuevo Orden” de Michel Franco, uma das cores da bandeira mexicana é utilizada como marca estética de uma revolta que dá para o torto e para medidas totalmente autoritárias.

“Primo” mexicano de “Parasitas”, como se o filme de Bong Joon-ho se encontrasse a meio caminho com “Os Filhos do Homem” de Alfonso Cuáron, “Nuevo Orden” não está longe – ideologicamente – de “Mano de Obra”, que Franco produziu no ano passado, e que seguia a ocupação de uma casa, com uma espécie de organização socialista, para dar a ver como a transformação humana transita para o pior quando o poder começa a criar vícios.

Todas as revoluções a que assistimos falharam. A revolução mexicana foi há cem anos e o país está num estado terrível”, explicou-nos o cineasta ainda em 2020, no Festival de San Sebastián, onde o filme passou depois de estreia – e prémio – em Veneza.

Energia, suspense e choque são as palavras que encontramos para a revolução que encontramos aqui, sempre com um olhar cru e pouco dado a ligeirezas de um realizador que gosta de colocar as suas personagens sob forte escrutínio, físico e psicológico. 

Violento, destemido, sempre frenético e propositadamente incómodo, “Nova Ordem” avança implacavelmente com personagens de classe alta que celebram os encantos da vida e do seu legado, sempre com outras personagens serviçais em seu redor, muitas delas de origem indígena a servirem de amparo para a sua posição hierárquica social. A falência deste sistema, onde primam opressores e oprimidos, ricos e pobres, é aqui escancarada na cara do espectador quando uma festa de casamento chique numa mansão é interrompida por protestos e assassinatos que vêm do lado de fora. Este é só o princípio que nos levará para uma Cidade do México distópica, entregue ao caos revolucionário que inevitavelmente cai no totalitarismo. 

Numa das cenas mais marcantes do filme vemos uma avenida completamente arrasada em que se destaca o selo da Louis Vuitton num enorme edifício. Essa marca simbólica é apenas uma amostra da mensagem do cineasta sobre o sistema capitalista atual, deixando um aviso expresso que do outro lado da barricada estão mais que boas intenções, mas uma sede inevitável de poder. E este poder, na mente e cinema de Franco, corrompe de forma intransigente e universal.

Nova Ordem” é, muito provavelmente e até à estreia de “Sundown”, o seu melhor filme, mais honesto e bruto.

Pontuação Geral
Jorge Pereira Rosa
nuevo-orden-o-melhor-de-michel-francoEnergia, suspense e choque são as palavras que encontramos para a revolução que encontramos aqui, sempre com um olhar cru e pouco dado a ligeirezas.