É impossível não ver nas entrelinhas de “Free Guy”, alegada proposta de verão descerebrada e “fun” escapista com Ryan Reynolds no protagonismo, uma enorme alegoria a toda a transição/absorção da 20th Century Fox pela Disney.
Neste filme de Shawn Levy (responsável pela franquia “À Noite no Museu”, entre outros), um videojogo chamado “Free City” tem uma legião de fãs por todo o planeta, os quais se divertem por essa cidade a roubar, matar, espancar e muito mais (misto de GTA, Carmageddon e descendentes) os chamados NPC (non-player characters – personagens comandadas e programadas por rotinas do sistema que agem da mesma maneira).
Porém, no código desse jogo em que todos estão siderados pode estar escondido (ilegalmente) um outro código de programação especialmente desenhado por um par – Millie (Jodie Comer) e Keys (Joe Keery) – cujo objetivo era transformar esses NPC em verdadeiros algoritmos que apreendem e ganham livre arbítrio. É nisso que entra em cena Guy (Reynolds), um desses NPC que de um dia para o outro começa a tomar ações individuais baseadas nas suas próprias escolhas, o que vai contra aquilo para que alegadamente foi programado, colocando em risco o videojogo e a empresa detida por um egomaníaco (Taika Waititi, sempre excêntrico) cujo segredo (utilizou o código ilegalmente) pode ser exposto.
Não dá para escapar à lembrança de narrativas como “Matrix”, “13ª Andar”, “Dark City” e, claro, “The Truman Show” quando vemos Guy a tomar a suas primeiras decisões, e que passam invariavelmente por usar uns óculos especiais (ao estilo “Eles Vivem” de John Carpenter) que permitem ver um mundo novo escondido dentro do próprio videojogo, assumindo igualmente novos poderes. Questões de classes, vida real vs vida artificial e algoritmos que se tentam impor à decisão humana e escolha individual estão também cena, mas o estilo com que Shawn Levy conduz a sua história tem muito mais a alma e diversão aventureira dos anos 80 (que Spielberg reprogramou/recalibrou esteticamente em “RPG”) do que qualquer abordagem mais dramática, enigmática e sombria que os exemplos de filmes que demos dos anos 1990.
Por isso, quando Taika Waitika – no auge do seu poder controlador e usurpador – decide apagar do mapa o jogo “Free City” e apenas seguir com uma sequela sem as personagens do jogo anterior, aniquilando vidas de Inteligência Artificial com livre arbítrio, vem logo à cabeça a compra da Fox pela Disney, pois o “código genético cinemático” está a ser reaproveitado para dar lucro à segunda, mas a sua memória fílmica (e selo) é apagado e absorvido pelo gigante do entretenimento que o transformou em seu.
Feitas as contas, “Free Guy” vai um pouco além do escapista filme de verão com muita ação, aventura e romance para vender sacos de pipocas e bebidas num jeito de videojogo filmado. No fundo, no seu código base está uma mensagem clara; um grito vindo de dentro (é mesmo um projeto da 20th Century Fox) como se ali existisse uma última aldeia gaulesa a resistir aos romanos num palco chamado indústria do cinema.
E quando, do meio do nada, surgem imagens e referências artificiais e deslocadas à Marvel e “Star Wars” num filme que nada tem a ver com eles, temos de ver que é mais que uma mera piada ou mimo, mas uma forma de mostrar que temos uma empresa que decide colocar em todos os seus produtos cinematográficos verdadeiro product placement encapotado a outras marcas suas.
E se virem além do óbvio (não precisam usar óculos), “Free Guy” é mais inteligente e sarcástico que aparenta, deixando bem claro que a ilha invisível que no final ganha forma nesta cidade virtual não é mais que os restos do código de programação de um estúdio com uma enorme história e que agora foi absorvido por outro com ambições bem mais totalitárias.















