Além do cansaço natural de uma franquia que já ia em cinco filmes de 2003 a 2017, o “caso Johnny Depp” teve uma consequência imediata para a Disney: uma das suas sagas de maior sucesso, Piratas das Caraíbas, ficou órfã, levando todo o conceito a ser repensado em termos de forma original e de eventuais spin-offs, pois como sabemos “the show must go on” e há dinheiro para fazer.
Aliado a isso, o gigante do entretenimento já provou várias vezes – via Marvel ou Star Wars – que as suas produções vão muito além do universo audiovisual, atravessando terrenos do merchandise e alimentando também os seus parques de diversões. “Jungle Cruise” é isso mesmo, uma atração dos parques Disney que até se tornou obsoleta por conteúdo entretanto considerado racista, e que precisava urgentemente de uma espécie de “origin story”. E este filme com Dwayne Johnson e Emily Blunt é isso mesmo, uma desculpa e uma máquina genérica de aventuras para ligar um filme a uma diversão do seu parque de diversões, além de, paralelamente, ser uma forma da gigante criar um novo potencial franchise no género para tentar preencher a lacuna de mercado que Piratas das Caraíbas temporariamente deixou.
Particularmente bem sucedido monetariamente nos anos 80 e 90, muito por culpa de Indiana Jones, o género de aventura apresentou títulos atrás de títulos (Goonies, Busca da Esmeralda Perdida, Joia do Nilo, Minas de Salomão, A Múmia) até que explodiu definitivamente já no novo milénio sob as peripécias do agora “persona non grata” Johnny Depp e o seu Jack Sparrow. Desde então, houve outras tentativas de criar franquias, como “O Tesouro” ou “Jumanji“, este último, na sua segunda vida cinematográfica, coincidentemente também protagonizado pelo rentável The Rock.
A ideia deste “Jungle Cruise” é um novo conteúdo (isso mesmo) nascido a partir de uma aventura Amazonas acima e selva Amazónica adentro, como todos os lugares-comuns e previsibilidade que se esperaria. Frank Wolff (Dwayne Johnson) é um capitão que se une com uma exploradora para encontrar as Lágrimas da Lua, uma árvore mitológica escondida cujas folhas curam qualquer doença e quebram qualquer maldição. Mas ambos vão ter de lidar com forte concorrência no local do grande vilão (Jesse Plemmons, no já seu modo habitual de “Matt Damon do mal”), além do misticismo da selva na proteção a si própria.
Claro que atrás de uma camada de aventura muito derivativa (sensação frequente que já vimos este filme em vários tempos da nossa vida) encontramos pequenos golpes internos, um vilão de sotaque carregado, muito exotismo da paisagem, das suas gentes e da História, e toneladas de CGI na criação de sequências de ação e nas suas personagens animais, além de um romance a despontar a qualquer instante e o costumeiro humor inofensivo e inerte, muito dele slapstick, em que a Disney é perita.
Tudo isto, e mesmo com atores carismáticos e um realizador (Jaume Collet-Serra) extremamente eficaz no cinema de ação que faz, não conseguem transformar “Jungle Cruise” em mais que um produto de entretenimento descartável e dispensável para alimentar uma linha de montagem intersectorial.
Na verdade, este é típico filme domingueiro que tem como alvo principalmente um público familiar, mas que certamente atrairá os nostálgicos de um género que espera e desespera por um novo Indiana Jones nas suas vida para mostrar aos filhos, ou então mais um “Piratas das Caraíbas” e toda sua forma escapista inerente.


















