Deixando para trás dois filmes que encerraram uma trilogia que une um universo muito próprio de super-heróis (Unbreakable; Fragmentado; Glass), M. Night Shyamalan regressou às narrativas misteriosas movidas por relações familiares em contextos de tragédia (Sinais; A Vila; A Visita) para nos contar a história de uma praia que tanto podia estar inserida num verdadeiro remake de terror de “A Ilha da Fantasia”, como ter uma agenda de suspense com toques à la Wayward Pines, que ele levou à TV.

O material que o cineasta norte-americano de ascendência indiana transpõe para o cinema agora é inspirado na banda-desenhada “Sandcastle” (Castelo de Areia), assinada por Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters. Com bastantes liberdades criativas, a começar pela mudança de um protagonista imigrante argelino para um alegado rapper norte-americano bastante famoso, “Old” mostra-se mais um ensaio B a sair da mente do realizador que demonstra essencialmente três coisas: A primeira é que M. Night Shyamalan sabe manter um bom ambiente de mistério e terror que vai entregando poucas respostas até ao final. A segunda é que é um péssimo diretor de atores, havendo aqui momentos e prestações bem sofríveis. Finalmente, e em terceiro lugar, esmagando completamente o primeiro ponto, este Shyamalan rendeu-se completamente ao facilitismo que o cinema e streaming impõem (naquilo que normalmente chamamos dedo de produtor) ao ser demasiado explicativo e pronto a dar respostas finais e encerrar temas do mistério que estávamos seguindo durante todo o filme.

No meio disto tudo, o resultado só podia ser um: nasce um guilty pleasure que se acompanha de cérebro desligado e que funciona como um trabalho isolado menor do realizador, mas que encaixa na perfeição na sua obra que conta ainda com filmes como “O Sexto Sentido”, “A Senhora da Água” e “O Acontecimento”.

Se pensarmos bem, todos os filmes de Shyamalan vistos numa perspetiva geral, poderiam fazer parte de uma temporada única de um “Twilight Zone” pessoal ou então uma espécie de “Shyamalan Apresenta”, ao velho estilo de Hitchcock. Do mestre do suspense, Shyamalan tirou algumas lições, não apenas de estilo e criação de atmosfera, mas até na sua presença constante nos próprios filmes em pequenos papéis.

A verdade é até isoladamente, o tempo passado a ver este “Old” não é de todo perdido, até porque no meio da história de uma praia visitada por uma série de famílias, onde todos começam a envelhecer e não conseguem escapar, estão atores que bem conhecemos e sabemos possuírem capacidades acima da média quando bem orientados. Nesse grupo está incluído Gael Garcia Bernal, aqui um génio estatístico que trabalha para uma companhia de seguros e que viajou com a esposa doente (Vicky Krieps) e os dois filhos. A sua separação da esposa é iminente, mas isso apenas serve para preencher pequenas subtramas que Shyamalan tenta embutir numa história que tem em “Lost” de J. J. Abrams um parente ideológico recente, e que não ficaria de todo mal em qualquer episódio mais longo de “Black Mirror”.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
old-o-tempo-volta-para-trasO tempo passado a ver este “Old” não é de todo perdido, mas a obra encaixa melhor quando vista em panorama com a carreira de Shyamalan do que isoladamente