Mark Boal, o argumentista que ganhou o Oscar por ‘Estado de Guerra’ (“The Hurt Locker”), em exclusivo ao c7nema.net

(Fotos: Divulgação)


Mark Boal e Kathryn Bigelow

 

“Há alguns homens que gostam de guerra, disso não há dúvida”

 

Nos dias que correm, a palavra Oscar precede a de Mark Boal, o argumentista de Estado de Guerra, o grande vencedor da cerimónia da Academia de Hollywood deste ano, como Melhor Filme, Realizador (Kathryn Bigelow) e Argumento Original (Boal). Aos 37 anos, o jornalista freelance nova-iorquino, com trabalhos publicados no The Village Voice, Rolling Stone e Playboy, voltou a trazer a bem informada visão da guerra do Iraque. Seria precisamente o artigo Death and Dishonor, sobre o assassínio de um militar após o regresso do Iraque, publicado na Playboy, que daria a inspiração para Paul Haggis escrever o guião para o filme No Vale de Elah (2007), também por ele realizado. Regressa agora ao tema do trauma latente nesta incursão pelo vício da adrenalina em perigo de vida. Sentámo-nos com o argumentista (e também a realizadora, que publicaremos proximamente) no lounge Nikki Beach, no Lido, em Veneza, ainda em Setembro de 2008, no início da promoção do filme.

 

É a segunda vez que parte da Guerra do Iraque para a elaboração de uma peça literária. Que aspecto mais o fascina? As feridas dos soldados que não se vêem?

 A guerra é uma experiência tão intensa que marca para a vida quem nela participar. Ponto final. É claro que muitos deles regressam e têm uma vida normal, mas para muitos isso não sucede. Segundo fontes militares, 20% dos americanos sofre de um stress pós traumático. A personagem de James (Jeremy Renner) lida com esse stress de uma forma que talvez não seja única. Há duas formas de lidar com isso: ou nos tornamos num vegetal, e ficamos a sós no quarto a disparar contra inimigos invisíveis e em sobressalto sempre que é accionado o alarme de um carro; a outra é ser quase contra-fóbico e querer regressar à guerra, pois é a única forma em que nos sentimos vivos. Com toda a actividade psicológica e emocional fechada, é normal que todo resto, incluindo as relações afectivas e familiares, pareçam banais.

E como foi no seu caso, que também esteve na guerra?

É verdade, embora tenha sido por um período muito escasso, comparado com estes tipos. Não quero exagerar a minha experiência, mas após as minhas três escassas semanas, quando regressei a Nova Iorque, sentia-me bastante estranho. Quando aterrei no aeroporto, parecia que estava ainda no jipe militar. Quando ia com o meu pai de carro gritei-lhe para ir mais depressa e passar “estes tipos que não saem da frente!” Estava ainda muito agressivo. É essa intensidade que não desaparece, porque não existe mais nada, nenhuma área de descompressão. Ainda por cima, em Bagdad não existe nenhum local para onde passamos ir. Ao contrario do Vietname, onde existia Laos, Saigão ou outros lugares.  A “área verde” é também uma área de ataque. O que tentámos mostrar no filme é que tudo é um potencial foco de perigo. Seja um caixote do lixo ou um punhado de pedras, ambos nos podem matar. Num ambiente em que nunca podemos relaxar, isso acaba por afectar toda a gente. Mesmo os repórteres que lá vão

O estilo adoptado é o de um típico filme de acção. Ainda assim, acha que existe aí algum ponto de vista politico?

A Kathryn foi muito precisa em aproximar-se deste projecto como um drama. A guerra era apenas um ambiente para contar uma história humana. Nunca nos interessou fazer qualquer tipo de comentário político.

No entanto, o dilema desta personagem é não ter qualquer tipo de escolha…

O que eu espero é que o espectador consiga alterar a sua visão típica do herói. Mas o que o filme faz é desconstruir essa noção de herói de Hollywood e torna-se mais num herói grego que sofre internamente e paga o preço de se isolar da sociedade. O drama será o despojamento desses clichés.

Tem algum número dos voluntários que vão para o Iraque?

Todo o exercito é feito de voluntários. São 150 mil voluntários. Não há incorporação obrigatória. Mas não há escolha para onde se vai. Depois do 11 de Setembro muita gente se alistou. Já não é como nos anos 80, em que a expectativa era ter um tempo de militar sossegado, sem combate. Mas esta geração cresceu com uma guerra activa, e na esperança de ir para o Afeganistão ou Iraque.

Poderia a personagem do Jeremy Renner ser uma mulher?

Em teoria sim. Mas não há mulheres em situações de combate. Há mulheres militares, mas não em situação de combate.

 

 

Filmes recentes que trataram o tema da guerra não tiveram muito sucesso de bilheteira. Porque acha que é assim? Estarão as pessoas fartas de guerra?

Que eu saiba, nenhum filme de guerra que eu tenha visto trata este tema da forma que o fizemos. Ou é a tentativa de reintegração do soldado ou são situações de guerra no Iraque ou Afeganistão. Não há nenhum precedente. Talvez existam mais no futuro. Acho que esta guerra é muito emocional e julgo que os realizadores irão abordá-la de uma forma mais próxima do que fizeram, por exemplo, no Vietname. Acho que gerou uma certa forma de fazer cinema.

Estranha o facto de os filmes de guerra não terem muito sucesso? Será que as pessoas estão fartas da guerra?

Tanto o Black Hawk Down como o Apocalipse Now  são filmes de guerra aberta e com a dificuldade de lidar com essa memoria. Este é um filme diferente.

Qual foi a descoberta que fez durante a sua pesquisa?

Que alguns destes homens gostavam realmente do que estavam a fazer, de estar em combate.

Não esperava isso?

Não, eu sou um escritor de esquerda do Village Voice, de NY, que foi para o Iraque escrever a narrativa típica de soldados a protestar como era tudo mau. Mas eles não protestaram. É essa a maior diferença do Vietname, pois aí eram obrigados a ir e não queriam ir. Há uma emoção particular em segurar uma arma e ir para uma situação de combate que lhes dá adrenalina.

Acha que existe mesmo um vício da Guerra?

Há alguns homens que gostam de guerra, disso não há dúvida. E até à altura que superemos essa faceta e consigamos explicar quais os motivos por detrás dessa guerra, isso será benéfico. Este filme trata mesmo das pessoas que acham que a guerra é algo excitante.

Acha que essa adição da guerra poderá ser comparada com a experiência emotiva de jogar um jogo de combate violento e realista? Algo que se vê também no filme? É uma adrenalina semelhante?

Um videojogo é sempre demasiado limitado. É claro que é muito viciante e emotivo, no entanto não actua do ponto de vista existencial como faz uma guerra a sério. Se passarmos um dia numa zona de combate, não pensamos mais na roupa suja, no nosso carro. Provavelmente, preocupam-se apenas com a sua própria mortalidade. Ou nem sequer isso…

Não acha que existe também algo erótico num político em poder declarar guerra?

É claro que é uma resposta óbvia. Veja bem, o Bush era o derradeiro cowboy. E tinha aquelas frases bombásticas e dramáticas. É fácil dizer isso da Casa Branca, onde há ar condicionado e estão em segurança.

Se calhar é mesmo o tal videojogo, em que não estamos lá….

Sim, é isso mesmo.

Paulo Portugal, Veneza (2008)


 

 

 


 

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