Pedro Costa: Tourneur, cavaquismo e zombies

O cineasta Pedro Costa foi um dos convidados do Motelx 2020

(Fotos: Divulgação)

Não é todos os dias que se tem o vencedor do festival de Locarno no Motelx, avisou João Monteiro nos momentos iniciais da sua conversa com o cineasta Pedro Costa, convidado este ano da secção Quarto Perdido.

Num diálogo com cerca de uma hora de duração, que decorreu no sábado passado (12/09), no Cinema São Jorge, Pedro Costa abordou a afinidade do seu cinema com o de Jacques Tourneur. “Devo ter visto o ‘Cat People‘, como muita gente, na televisão, mas realmente a primeira vez que vi um filme dele a sério, que apanhei um choque, que tive uma revelação, foi num ciclo organizado pelo João Bénard da Costa na Gulbenkian no princípio dos anos 80. (…) Foi com o ‘Stars in My Crown‘. Não é um filme de terror, também não é um western. É um semi-western sobre um pastor no oeste numa pequena aldeia. Há duas coisas que acontecem: há uma peste, um miúdo que bebe água e aquilo propaga-se. E há um milagre – uma pessoa que está muito mal com essa maleita e ressuscita. (…) Tourneur soube trabalhar os géneros, porque é um filme sobre uma peste, como é que a coisa se infecta, mas não só a peste, também o racismo.

Descrevendo Stars in My Crown como “uma das mais belas colaborações” entre brancos e negros no cinema, Pedro Costa explicou posteriormente o que o levou nos anos 90 a desenvolver um remake de  “I Walked With A Zombie”, na forma de “Casa de Lava”, projeto produzido por Paul Branco que inicialmente era para ser filmado nos Açores, mas que depois seguiu para Cabo Verde: “Naquela altura a gente vivia numa coisa que aqui se calhar ninguém percebeu que era o cavaquismo. Uma coisa patética. Uma altíssima má onda. Eram [tempos] dos homens da regisconta, contabilistas e economistas que só diziam ‘Progresso, progresso! Europa, Europa! Se calhar foi por isso. Apeteceu-me ir para longe, para fora de Portugal.”, explicou o realizador, lançando ainda alguns detalhes sobre a participação de Edith Scob na produção.

Fantasmas, mutantes… zombies

Fantasmas, mutantes, zombies. Muitas vezes, a crítica especializada usa alguns destes termos para falar dos filmes de Pedro Costa, e descrever as suas personagens (Vitalina, Ventura), algo que desgasta (e chateia) Pedro Costa, especialmente no que diz respeito ao termo associado aos mortos-vivos: “É uma conversa sem pés nem cabeça, uma conversa estúpida que a maior parte das vezes vem dos críticos eruditos”. O realizador acrescentou ainda que há uns anos o termo preferido dos críticos era “fantasmas”, embora entenda que essa palavra “tenha outro estofo“.

Dizer que qualquer pessoa que adormece ou acorda, está transtornada ou deprimida, é um zombie… Não é! Esta conversa agora ofende-me mais porque toda a gente que vive para além de Benfica é zombie. (…) Posso imediatamente contrapor a palavra condenado. Parece-me mais justo, mais certa. A Vitalina e o Ventura são pessoas condenadas desde o princípio como os outros que vêm nos barcos. Assim que a Vitalina entra num avião da TAP para vir para cá, seja porque razão for, está condenada. Está amaldiçoada por todos. Passar disso para um zombie, um fantasma… Ela não é um fantasma. Ela tem 58 anos, não tinha papéis há um ano. Foi dificílimo chegar aos papéis da Vitalina. Foi um ano inteiro durante as filmagens a ir para o Marquês de Pombal. (…) Sei por experiência, na Cova da Moura, na Damaia, nas Fontainhas, na periferia eles sabem que são capazes de fazer as coisas e até de concorrer com o Brad Pitt. Não são zombies nenhuns, são grandes trabalhadores. Pessoas muito vivas”, concluiu.

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