‘Charlatan’: Épica reflexão sobre escolhas e curas
Na Berlinale, a cineasta Agnieszka Holland já é de casa: tem um filme novo, entra na seleção.Embora a curadoria do certame tenha mudado no comando da maratona cinéfila alemã, o respeito local pela realizadora de “Europa Europa” (1990) segue intocado, ganhando, este ano, um gás extra, uma vez que ela regressa à cidade com o seu filme mais sólido em anos: o drama histórico “Charlatan”. Aplausos aqueceram a passagem da longa-metragem pela mostra Berlinale Special, fora de concurso, à força de uma direção de arte impecável ao recriar a Checoslováquia em diferentes momentos do século XX, em especial o período do avanço nazi.
“Vivemos tempos em que nem os jornalistas se lembram do que passou ontem. Eu tento usar a História aqui como uma personagem, tirando dela mitificações apressadas“, disse Agnieszka numa das mais inflamadas conversas com a imprensa de Berlim em 2020, diante do ataque do filme e da polaca à falta de políticas ecológicas mais sérias.
Apoiada no talento do ator Ivan Trojan, “Charlatan” revive os feitos do especialista em ervas medicinais Jan Mikolásek (1889-1973), um curandeiro que salvou milhares de vidas analisando a urina dos seus pacientes. A sombra do nazismo e a intolerância das células comunistas vão assombrar a vida e o trabalho de Mikolásek, sobretudo depois da sua paixão pelo seu assistente, Frantisek (Juraj Loj).
“Não gosto de usar a palavra ‘herói’ para falar dos feitos de Mikolásek, assim como não gostava de empregá-la em relação ao repórter e fotógrafo Gareth Jones, do meu filme anterior (‘Mr. Jones’, exibido na Berlinale em 2019). Eu vejo mais coragem do que heroísmo. ‘Herói’ é um termo que se associa à guerra. Coragem é um artigo raro que diz respeito ao cuidado com o próximo“, disse Agnieszka ao C7nema. “Fazer aquilo que se ama não é heróico, é ético. E Mikolásek amava ajudar pessoas doentes“.
Conhecida pela sua abordagem clássica quase enferrujada de enredos políticos, Agnieszka liberta-se dos seus vícios e das suas acomodações em “Charlatan”, num delicado estudo das angústias isoladas nos porões da alma. É, sim, um filme de denúncia contra os abusos do regime comunista durante a Cortina de Ferro, mas é, antes disso, um estudo sobre a compaixão.
“Estudei Cinema numa época em que a Nova Onda checa estava no auge. Ali havia o que existia de mais sexy e ousado do cinema mundial, com cineastas como Milos Forman. Eu mostrei esse movimento ao filmar em solo checo, agora, mas de um modo bem orgânico, pois as referências desses filmes nunca me saíram da cabeça“, disse Agnieszka. “Filmar naquele contexto da minha própria formação deu-me uma sensação de volta ao passado, que me fez rejuvenescer“.
Na competição oficial, que encerra as suas exibições na sexta, a Berlinale foi engolfada na manhã desta quinta pelo silêncio da Ásia minimalista de Tsai Ming-Liang e o seu “Days” (“Rizi“), cuja aposta na contemplação desafia hábitos contemporâneos de recepção de obras de arte. É necessária uma calma monástica para se desbravar o oceano de signos do diretor de “O Buraco” (1998), mas o esforço é compensado com uma belíssima reflexão sobre a destruição dos corpos e do desejo. Lee Kang-Sheng, ator fetiche do cineasta vive um cinquentão abalado por problemas de saúde que alivia a sua angústia no toque de um prostituto (Anong Houngheuangsy). Até os corpos deles se cruzarem, Tsai distende o tempo ao máximo, numa observação quase documental de ritos do dia a dia: banhos tomados, courgettes raladas, massagens. É um olhar sobre a rotina, entre os seus encantos e suas pústulas inflamadas, em especial o calombo da velhice e a ferida da solidão.

“Não considero ‘Days’ um filme silencioso, pois os barulhos da cidade servem como uma banda sonora“, disse o diretor ao C7nema. “Essa é apenas a história sobre dois homens em instâncias distintas da linguagem, que não falam a mesma língua, mas se encontram“.
Sábado acontece a entrega de prémios do festival, que chega ao fim no domingo. Tsai tem fortes chances na categoria de melhor realização.

