A lei de Pedro Almodóvar

(Fotos: Divulgação)

Falar de Almodóvar é como falar de uma paixão que nunca morre, que tem as suas aparições e os seus reencontros. Almodóvar não se esquece e mais se entranha à medida que o vamos descobrindo. Percebê-lo torna-se mais fácil se conhecermos o povo espanhol e o seu país. Travei amizade com muitos, da Andaluzia à Catalunha, da Galiza ao País Basco. Vivi com um catalão e depois com um madrileno. São pessoas que contagiam, ao pé das quais queremos estar. O cenário pode ser negro, mas é raro irem-se a baixo. Lutadoras, fortes e determinadas, são gente que busca risos e sorrisos, que ama a sua pátria, a sua língua, a gastronomia e a família. E por família não entendem apenas os laços de sangue, mas os que criam elas próprias, com quem querem junto de si. 
Os espanhóis gostam de festa, de birras, de mulheres e homens. Gostam de pessoas e não estão preocupados com o que os outros pensam deles, mas sim com o que querem para si mesmos. E vão fazer tudo para o conseguir. 
Os espanhóis saem de casa cedo e vão à sua vida. Almodóvar não fugiu à regra. Aos 18 anos saiu do colégio religioso, em Cáceres, para onde os pais o haviam mandado com a intenção de o tornarem sacerdote. Dá para rir. Mas foi durante essa estadia que começou a interessar-se por filmes, porque ao contrário de La Mancha, sua terra natal, Cáceres tinha um cinema, que frequentava religiosamente e onde aprendeu com os grandes: Buñuel, Fassbinder, Hitchcock, Bergman, Fellini, Marco Ferreri, etc. Mudou-se para Madrid com o objectivo de ser realizador, mas como a Escola Internacional de Cinema tinha sido fechada por Franco, foi trabalhar. Esteve 12 anos na Telefónica, onde pôde estudar os hábitos das pessoas, meticulosamente. É isso que ele e os seus hermanos têm de fascinante: fazer das mais deformadoras circunstâncias, uma experiência enriquecedora. Puxar a brasa à sua sardinha e comê-la com verdadeiro apetite, até chegar o caviar. 
Durante esses anos, comprou uma super-8, conheceu Carmen Maura, fez cinema e teatro experimental, escreveu pequenos artigos para revistas da contracultura. Depois publicou no El País e escreveu novelas. As suas primeiras curtas com a super-8 foram exibidas em Madrid e Barcelona. A seguir fez uma longa – “Folle, folle, fólleme, Tim!” – e a sua primeira curta em 16 mm, “Salome”, com Carmen Maura.
 
 
Almodóvar tornou-se realizador, argumentista e produtor, mas é sobretudo um contador de histórias e um director de actores, ou melhor, de actrizes, de mulheres, no sentido literal em que as orienta e direcciona. Aos seus olhos, as mulheres dão melhores personagens, são mais trágicas e conseguem ter uma maior versatilidade. Eu concordo e acrescento: as mulheres espanholas dão melhores personagens. Também as minhas amigas fizeram teatro e como era apaixonante vê-las. As mulheres têm mais carisma. E para saber isso basta andar na rua, observar, escutar conversas e atritos. Por isso é que todos gostamos de mulheres.
Conheci Almodóvar com “Mulheres à beira de um ataque de nervos” (1988), filme que o estabeleceu como um verdadeiro director do sexo forte, comparado a Fassbinder. Na altura, a minha atenção prendeu-se nas cores vivas, nas roupas, no cenário, no exagero, na ironia e na artificialidade. No kitsch portanto, ou melhor dizendo, no camp. Almodóvar explora igualmente a histeria daquelas mulheres, no compromisso entre a solidariedade feminina. Porque “os homens também choram”, mas as mulheres choram melhor. E há ainda uma coisa que chama a atenção, uma coisa barulhenta que percorre todo o filme, ao pé da qual se reza, se espera e desespera, que é o telefone. 
 
Depois recuei e vi “Negros Hábitos” (1983) que conta, como o que referi acima, com muitas das actrizes predilectas de Almodóvar: Carmenu Maura, Julieta Serrano, Marisa Paredes e Chus Lampreave. Uma sátira às instituições religiosas espanholas que explora a força do desejo. É igualmente uma história muito melodramática, onde já utiliza canções populares para descrever sentimentos. Aborrecidas pela inércia, as freiras pecam e chegam a pôr-se na pele das ovelhas tresmalhadas que querem salvar, para poderem falar com elas do mesmo patamar. Um filme cheio de personagens onde não se sabe muito bem quem são as protagonistas. E o conjunto faz realmente a força.
“A flor do meu segredo” (1995), tal como “Fala com ela” e “Tudo sobre a minha mãe”, expressa a perda, o crescimento e a recuperação. É o filme de transição para uma época mais madura. “Tudo sobre a minha mãe” (1999) consagrou definitivamente o realizador, que dirige aqui mulheres que fingem, mentem e ocultam e, de novo, se ajudam, para que a vida flua, depois de se desenterrar o passado e de lhe fazer o devido luto. Em “Fala com ela” (2002) há um cruzamento entre várias artes – a dança, o teatro, o cinema – entre personagens e histórias. Desta vez, dois homens cuidam das mulheres que amam, enfermas, e a vida joga-se entre a morte, a coincidência e o destino. O estilo impõe-se à trama, onde a (in)comunicação é rainha. A palavra como refúgio à solidão, à doença e à loucura. A palavra dita a quem não a pode ouvir. A grandiosidade do monólogo. É dos filmes mais comoventes e sérios de Almodóvar. A prosa é mais lenta, menos visceral, mas mais inquietante. É um registo quase novo para si, a que volta em “Abraços Desfeitos”.
 
 
Abraços Desfeitos
“Má educação” (2004) contem elementos do film noir e da femme fatale. É mais ousado, recorrendo ao filme dentro do filme, a histórias reais e imaginárias. Um melodrama mais negro e desesperado que mostra uma certa nostalgia da violência. O cinema como refúgio e como espelho, onde os personagens se encerram e se vêem reflectidos. 
“Volver” (2006) é um regresso às origens. À comédia, às mulheres e, sobretudo, à linguagem, aos costumes e aos pátios de La Mancha. É um drama familiar, com uma dimensão fantasmagórica. Uma ode à resistência do sexo feminino.
A obra de Almodóvar é viva, gritante e sensível. A sua visão é apaixonada e é com paixão que olhamos os seus filmes, onde a mulher encarna a tragédia da existência, guiada pelo destino. E nós rimo-nos com ela, na mais profunda dor. Através de narrativas cada vez mais complexas, aplica os códigos do melodrama em temas que abarcam o desejo, a paixão, família e identidade. Contemplamos violações, vinganças e assassinatos que roçam o ridículo, a paródia e o horror com extrema inteligência. As relações guiam-se pela carne, pelo sangue, pelo cheiro. Animais.
Depois de nos ter surpreendido com uma lufada de ar fresco ar dar-nos “Abraços desfeitos”, volta com “A pele que habito” às histórias mirabolantes, desta vez a do cientista louco, repleta de segredos que se desvendam à medida que entramos na epiderme, e com reviravoltas que nos deixam de queixo caído. 
 
O Almodóvar que me apaixona é o que “Fala com ela” e o que me conta “Tudo sobre a minha mãe”. Mas o amor perdura, enquanto a paixão arde. A paixão não segue nenhuma ordem. O amor, sim. A ordem ditada por Almodóvar.
 
Inês Monteiro 

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