Gus Van Sant: entre o mainstream e o indie

(Fotos: Divulgação)
Gus Van Sant é um caso curioso de um realizador que começou nos caminhos do cinema independente norte-americano e pelo meio já fez de tudo. Bem, quase tudo. Mas podemos afirmar que, entre os cineastas norte-americanos, em termos de versatilidade e alternancia quase bipolar entre projectos de grande orçamento e projectos mais “pessoais”, só o seu colega Steven Soderbergh lhe ganha. 
Van Sant nasceu no dia 24 de Julho de 1952 em Louisville, no estado de Kentucky, filho de Betty e  Gus Green Van Sant, Sr., um fabricante de roupa e caixeiro-viajante, que rapidamente ascendeu na escada corporativa. Como resultado da profissão do seu pai, a sua infância foi passada em várias moradas. Enquanto ainda estava na escola, começou a fazer curtas-metragens semi-autobiográficos em Super 8, custando entre 30 e 50 dólares. Em 1970, o seu interesse por pintura e cinema levam-no à Rhode Island School of Design, onde é colega de David Byrne e outros membros dos Talking Heads.
Após passar algum tempo na Europa, volta em 1976 para Los Angeles, onde arranja um trabalho de assistente de produção do argumentista e realizador Ken Shapiro. Em 1981, realiza “Alice in Hollywood”, sobre uma actriz ingénua em Hollywood forçada a abandonar os seus ideais. O filme nunca viria a ser lançado, Van Sant fica fascinado com Hollywood Boulevard, e vivências à margem da sociedade. Ainda focado nesta temática, lança quatro anos mais tarde a sua primeira longa-metragem, “Mala Noche”, que se revelou desde logo um êxito de culto no circuito dos festivais e elogios de várias frentes, com o jornal “Los Angeles Times” a nomeá-lo o “Melhor Filme Independente” desse ano. 
“No Trilho da Droga”, sobre um grupo de viciados em droga que viajam pela América na década de 70, atrai ainda mais atenções, mais prémios da crítica, e mais menções em listas de melhores filmes do ano, incluindo as de Roger Ebert e do já falecido Gene Siskel, na altura a dupla de críticos de cinema mais popular e respeitada dos Estados Unidos. Gus Van Sant tinha quebrado a maldição do segundo filme, com uma obra que só lhe abriu mais portas. Mas o realizador insistia em não se vergar ao “mainstream”, e seguiu-se um terceiro filme, que de comercial, só tinha actores que já tinham dado algumas provas de sucesso em filmes anteriores: River Phoenix, no auge da sua carreira infelizmente encurtada por um acidente trágico; e Keanu Reeves que aqui encontrou aquele que ainda hoje será o seu papel mais respeitado. Falamos obviamente de “A Caminho de Idaho”, uma adaptação muito livre das obras “Henry IV, Part 1”, “Henry IV, Part 2”, e “Henry V” de Shakespeare, sobre dois amigos numa jornada de descoberta pessoal. 
Com esta trajectória tão auspiciosa, seria de esperar que o seu quarto filme fosse um verdadeiro acontecimento. Infelizmente, “Até as Vaqueiras Ficam Tristes”, de 1993, esteve muito longe de preencher essas altíssimas expectativas, e marcou o seu primeiro falhanço junto do público e da crítica, que o arrasou e bem. É claramente o seu filme mais odiado – e isto já contando com o remake de “Psycho”, a obra-prima de Alfred Hitchcock, realizada uns anos mais tarde.  
Mas a década de 90 viria a trazer mais duas outras pérolas. Em primeiro lugar, o irresistível “Disposta a Tudo” em 1995, com a ajuda de uma inesquecível Nicole Kidman, num dos seus papéis mais icónicos – o de Suzanne Stone, uma jornalista ambiciosa e decidida a fazer qualquer coisa para subir na carreira. E depois, aquele que será ainda o seu filme mais popular: “O Bom Rebelde”, de 1997, aqui com a ajuda dos então desconhecidos Matt Damon e Ben Affleck, que assinam o argumento e protagonizam a película. O sucesso aqui espelha-se bem nos prémios (9 nomeações aos Oscars desse ano; 2 galardões conquistados dessas 9 nomeações) e nos números de bilheteira (só no mercado norte-americano, a película rende mais de 138 milhões de dólares, sendo um dos filmes mais vistos de 1997). 
 

Anos 2000

Três anos mais tarde, o realizador volta a surpreender, e filma uma versão mais urbana de uma história que era também central à de “Bom Rebelde”: um prodígio que esconde o talento que tem, até que uma figura mais paternal/de mentor o vem ajudar (a figura de psicólogo de Robin Williams é aqui substituída por um autor reclusivo interpretado por Sean Connery). “Descobrir Forrester” obtém bons resultados, quer do público quer da crítica, mas claramente inferiores aos de “O Bom Rebelde”, e é ainda hoje visto como um filme “menor” na sua filmografia. 
Van Sant volta-se então para o cinema “arthouse” que o acolheu no inicio de carreira, e realiza no espaço de cinco anos quatro filmes numa veia mais experimental e mais crua: “Gerry” (2002), “Elefante” (2003), “Last Days – Os Últimos Dias” (2005) e “Paranoid Park” (2007). Pelo meio realiza ainda o segmento “Le Marais” da obra “Paris Je T’Aime”. Com estes quatro filmes, Van Sant volta a ser abraçado pela secção do público mais “intelectual” e “elitista” que o teria abandonado no final da década passada, e vê os seus filmes voltarem a ser assunto dos festivais de cinema mais emblemáticos do mundo – sobretudo Cannes, com “Paranoid Park” e “Last Days – Os Últimos Dias” seleccionados para competição oficial, e “Elefante” a conquistar mesmo a Palma de Ouro e o Prémio de Melhor Realizador. 
 
Elephant 
Depois desta maré de filmes mais alternativos, o realizador pega num projecto há muito tempo na prateleira: um “biopic” sobre Harvey Milk, um dos activistas pelos direitos LGBT mais influentes da história. O filme revela-se um êxito de proporções consideráveis, e volta a trazer Van Sant a uma cerimónia dos Oscars na qualidade de nomeado (para Melhor Realizador).
E eis que ao fim de trinta anos de carreira, o realizador decide pegar num drama romântico sobre um doente terminal, em “Restless”. Será que conseguirá dar a volta ao “cliché”? Será que conseguirá evitar os caminhos mais básicos de uma adaptação de um romance de Nicholas Sparks? É o que poderemos ver a partir de hoje. 
 
Restless (Inquietos) 
 
André Gonçalves 

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