Veneza aplaude Dwayne Johnson em The Smashing Machine: “Há força na vulnerabilidade”

(Fotos: Divulgação)

Primeira longa-metragem realizada por Benny Safdie sem o irmão, Josh, com quem assinou thrillers de culto como Good Time (2017) e Uncut Gems (2019), The Smashing Machine tem Dwayne Johnson no papel de Mark Kerr, o lendário bicampeão dos pesados do UFC e ícone das Artes Marciais Mistas (MMA).

Não é a primeira vez que o antigo wrestler — eternamente conhecido como The Rock — surpreende pelas suas capacidades dramáticas. Basta lembrar Southland Tales (2006), que deu que falar em Cannes. Agora, em Veneza, é a sua interpretação que conquistou o público e a crítica, num certame onde Jude Law já tinha marcado terreno como Putin em The Wizard of the Kremlin e Jacob Elordi brilhou como a criatura em Frankenstein.

Esta presença não é sobre provar nada a Hollywood — é sobre mim. Passei anos na ‘via’ do box office. Foi bom, mas havia uma voz a dizer: ‘e se houver mais?’. Às vezes, quando nos encaixam numa gaveta, custa perceber do que somos capazes”, afirmou Dwayne Johnson em Veneza, perante jornalistas rendidos à forma como desaparece na pele de Mark Kerr. “Precisei das pessoas que amo e respeito — a Emily Blunt e o Benny Safdie — a dizer ‘consegues’. Quis viver o meu sonho, ir a sítios intensos e vulneráveis onde antes não tinha ido. Há força na vulnerabilidade.

The Smashing Machine

O filme acompanha a ascensão meteórica de Kerr nos anos 1990 e os demónios que enfrentou fora do ringue — sobretudo a dependência de analgésicos. Inspirado na carreira do verdadeiro Kerr, tal como documentado no filme homónimo da HBO de 2002, The Smashing Machine mostra o preço da glória. “Nada disto existiria sem o Mark, que está aqui conosco. Ele mudou as nossas vidas ao permitir-nos viver a dele — sentir as suas emoções. O filme não é sobre vitórias e derrotas; é sobre a pressão de vencer, o que acontece quando não se consegue… e quando ‘vencer’ se torna o inimigo”, disse Benny Safdie em Veneza. “Nos anos 90 havia algo de experimental no MMA: estilos diferentes a confrontarem-se, uma comunidade pequena e muito unida. Esse contraste entre luta e afeto fascinou-me. Nos EUA o desporto era banido em muitos sítios; no Japão era enorme; no Brasil, um furor. Esse caráter internacional também me atraiu.”

Emily Blunt interpreta Dawn Staples, a mulher de Kerr, acrescentando novas camadas emocionais ao filme e à química que já partilhara com Johnson em Jungle Cruise (Disney). “Fiquei feliz por existir uma mulher no meio da história do Mark”, disse a atriz britânica. “Há muito que se passa ‘à porta fechada’ quando se vive com um lutador. Conheci bem a Dawn; ela foi generosa ao partilhar tudo: arrependimentos, erupções, perigo… e um amor profundo num ambiente impossível. A relação no ecrã não é ‘formatada para cinema’; mostra o espectro real, em que o humor muda numa hora. Trabalhar com a energia visceral do Benny, sem ‘correções de segurança’, foi libertador. O filme é um grande cenário para falar de vulnerabilidade masculina. Os 90 exaltavam a invencibilidade; a MMA/UFC amplificava isso. A fita não é sobre o punho no ar, é sobre o depois — como manter uma imagem impossível parte as pessoas por dentro. O Benny quer que criemos empatia com quem parece invencível, mas está a rasgar-se por dentro.

É uma história de amor: entre o Mark e a Dawn, e entre o Mark e aquilo que fazia”, acrescenta Johnson. “Ele foi, em certo momento, o melhor do mundo — e também alguém que enfrentou vícios e quase morreu duas vezes. Eu tinha a fome desta transformação. A Emily encorajou-me desde Jungle Cruise a pôr na interpretação o que vivi em criança; o Benny disse ‘vamos a isto’ — e fomos.”

Safdie reconhece que já existem muitos filmes sobre luta, mas explica a sua abordagem distintiva nas cenas de combate, tendo criado uma regra: não entrar no ringue. “A câmara tem ‘acesso da terceira fila’, luta para ver, como quem está lá. Queria a realidade total: mapeámos combates, aprendemos técnicas com o próprio Mark; eu próprio pedi ao coordenador de duplos que me ‘derrubasse’ para sentir. Vimos combates reais sem som para compreender o movimento. O mesmo rigor vale para as lutas em casa: construímos a casa para esconder câmaras — só nós e a cena.

Após esta performance de Dwayne Johnson, já se fala em Óscares. E se The Wrestler, de Darren Aronofsky, venceu o Leão de Ouro em Veneza, em 2008, ninguém ficaria surpreendido se The Smashing Machine repetisse o feito.

 O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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