Realizador de filmes que invadem o terreno político do real como Carlos (2010), sobre Carlos, o Chacal, e Wasp Network (2019), sobre um grupo de agentes cubanos infiltrados em organizações anti-Castro em Miami nos anos 1990, o francês Olivier Assayas regressou a Veneza com The Wizard of the Kremlin (O Mago do Kremlin), uma adaptação do romance de Giuliano da Empoli – que funciona como retrato ficcional da ascensão de Vladimir Putin ao poder e da máquina de manipulação política que o rodeia.
Olivier Assayas declarou em Veneza, perante os jornalistas, que o seu filme – na competição ao Leão de Ouro – revela de que forma a política contemporânea, do século XXI, foi “criada”, em parte graças à ascensão de Putin. “A relação entre Baranov [personagem fictícia inspirada em Vladislav Surkov] e Putin é o coração do filme”, disse Assayas, que encontrou no livro de Giuliano da Empoli a representação da aliança entre uma liderança ‘pré-moderna’, brutal e violenta, com a manipulação ‘pós-moderna’ através dos media e da criação de realidades paralelas.
Sublinhando que esse modelo surgiu na Rússia, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, mas que hoje se encontra disseminada por todo o mundo, o cineasta francês que exibiu no Lido Doubles vies em 2018 frisou que o que pretendia não era uma caricatura das personagens ou dos eventos, mas um “encontro com o momento histórico que vivemos”.

“Sempre achei que o romance tinha vocação cinematográfica”, disse Giuliano da Empoli, que enviou apenas o manuscrito a Olivier Assayas, o realizador que considerava ideal para o levar ao cinema. “Três anos depois, ver o filme pronto é incrível. O livro foi escrito antes da invasão da Ucrânia, mas acabou por ser lido como uma explicação das raízes do poder de Putin e da violência que se seguiu.”
No papel de Vladimir Putin encontramos Jude Law, que nos últimos anos tem surpreendido em múltiplos registos, não só pela intensa transformação física — como em Firebrand, onde interpreta Henrique VIII —, mas também pela complexidade psicológica das suas personagens, como o agente do FBI Terry Husk em The Order ou o Dr. Friedrich Ritter em Eden. “Desde o início, o Olivier e eu decidimos que isto não seria uma imitação. Ele não queria que eu me escondesse atrás de próteses”, explicou o ator britânico em Veneza. “Trabalhámos com uma equipa fantástica de maquilhagem e perucas; tínhamos muitas referências da época e tentámos apenas criar alguma familiaridade. É incrível o que uma boa peruca pode fazer. Quanto à construção, havia imenso material de arquivo para ver, mas o mais difícil foi lidar com a sua ‘máscara’: um homem cujo rosto público não revela nada. A tensão para mim como ator era mostrar muito pouco por fora mas sentir imenso por dentro. Esse conflito acabou por ser a chave da interpretação.”
Explicando que, para entrar na pele de Putin, “tudo foi uma revelação”, pois sabia pouco sobre ele, Law garantiu não temer repercussões por interpretar o líder russo. “Confiei no Olivier e no guião”, disse. “Sabíamos que estávamos a contar esta história com inteligência e nuance, não por polémica gratuita. E era importante lembrar que a personagem fazia parte de um quadro muito mais amplo.”
No papel do conselheiro de Putin, Vadim Baranov, encontramos Paul Dano, que em Veneza sublinhou a riqueza do guião, que “parecia mais uma peça de teatro do que um guião de cinema”. “Trabalhei a voz como parte da inteligência da personagem, como a sua arma e até como a sua ‘magia’. A cadência das palavras, o ritmo e o fluxo eram fundamentais, sobretudo porque havia muita narração em voz-off. A ideia era que a voz lançasse um feitiço.”
O Festival de Veneza decorre até 6 de setembro.

