Guillermo del Toro: “Concretizar Frankenstein foi mais do que um sonho, foi quase uma religião”

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do Leão de Ouro em 2018 por The Shape of Water (A Forma da Água), que acabaria por conquistar quatro estatuetas nos Óscares, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Realização, Guillermo del Toro regressou ao Lido em 2022 para exibir a sua versão animada de Pinocchio. Agora, o mexicano volta novamente à competição principal com uma nova visão sobre Frankenstein, o clássico de Mary Shelley.

Com Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein e Jacob Elordi como a Criatura, uma figura delicada e sensível em vez da imagem aterrorizante do monstro convencional, del Toro descreveu o filme como o culminar de uma visão que o acompanhava há décadas. “Concretizar este filme foi mais do que um sonho, foi quase uma religião”, explicou o realizador, que marcou presença pela primeira vez na competição de Veneza em 2006, com El Laberinto del Fauno. “Fui criado como católico fervoroso, mas nunca compreendi bem a história dos santos. Quando vi Boris Karloff no ecrã, percebi como poderia ser a imagem de um messias. Desde pequeno que sigo a Criatura. Sempre esperei pelas condições certas para poder fazer o filme. Do ponto de vista criativo, queria realizá-lo de forma diferente, numa escala que pudesse ressoar em todo o mundo. Agora, confesso, estou num estado de ‘depressão pós-parto’.”

Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein

Descrevendo que tudo o que fez desde Cronos, o seu primeiro filme, estreado em Cannes, foi um caminho de aprendizagem até Frankenstein, o cineasta explica que só depois de ser pai percebeu que a história da Criatura era a de “um segundo pai e de um segundo filho”. “Estou feliz por ter esperado e grato por não ter feito este filme há 20 ou 30 anos.

Afastando o cenário de que o Frankenstein do nosso tempo seria a Inteligência Artificial, del Toro diz que não vê as coisas assim e que, apesar de vivermos num tempo de medo, a resposta terá de ser o perdão e o amor. “A questão central é: o que significa ser humano? Não há nada mais urgente hoje do que manter a nossa humanidade. Não temo a inteligência artificial, temo a estupidez humana natural, que abunda. (…) Frankenstein é um romance escrito por uma jovem de 19 anos, cheio de urgência e de perguntas. Não quis fazer uma obra reverente, mas sim urgente. Para mim, o perdão é o início da paz. A Criatura de Frankenstein é o meu monstro mais importante, uma linha direta desde a personagem de Caliban [em A Tempestade] de Shakespeare.

Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein

Já sobre a opção de criar cenários reais para o filme, reduzindo ao mínimo a utilização de CGI, enquanto Christoph Waltz brincou com a frase “CGI é para perdedores”, del Toro sublinhou que, desde o início, pensou num processo coletivo da sua equipa na construção do guarda-roupa e do set. Só depois disso os mostrou aos atores: “Se lhes damos apenas um ecrã verde, é diferente. Em cenários reais, eles reagem com outra energia. Cada espaço tinha significado e simbolismo: a sala do pai, as formas circulares, a escala quase operática… tudo alimenta a performance.”

O Festival de Veneza segue até dia 6 de setembro.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/h0rp

Últimas