A 82.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza ainda nem começou oficialmente e já está marcada pela tensão política. A ausência confirmada de Gal Gadot, presente no elenco de In the Hand of Dante, de Julian Schnabel, tornou-se inevitável depois das críticas dirigidas à atriz devido à sua posição pública de apoio a Israel. Questionado pela Variety, o diretor artístico Alberto Barbera foi direto: “Gal Gadot não vem.” A resposta encerra a especulação, mas não elimina a polémica em torno da presença israelita e da forma como o festival lida com as pressões externas.
A questão palestiniana está também no grande ecrã. Entre os filmes em competição está The Voice of Hind Rajab, da realizadora Kaouther Ben Hania, um retrato da história verídica de uma criança palestina morta em Gaza. Na altura do anúncio da seleção de filmes do festival, Barbera admitiu ter ficado profundamente emocionado com The Voice of Hind Rajab.
No entanto, o ambiente no Lido promete ser tudo menos pacífico. Barbera antecipou manifestações pró-Palestina durante o festival, lembrando que em Veneza já existem associações, como a Venice4Palestine, que pediram autorização para marcar presença. Também o padre local Nandino Capovilla, recentemente impedido de entrar em Israel, convocou os fiéis para uma manifestação em apoio de Gaza. “Ficaria surpreendido se não houvesse protestos”, afirmou Barbera, acrescentando que a organização procurará conter as intrusões sem permitir que o festival se transforme em palco partidário de apenas um dos lados. Para o italiano, o cinema deve ser um espaço de reflexão e não um território de censura.

A ausência de Gadot poderá evitar focos de conflito imediato, mas não atenua a carga simbólica de um festival que se abre sob o signo da guerra, da representação política e do protesto. De Gaza para a Ucrânia, outro dos títulos mais politicamente carregados da 82.ª edição de Veneza é Notes of a True Criminal, documentário de Alexander Rodnyansky em coautoria com Andriy Alferov.
Exibido fora de competição, o filme constrói uma narrativa íntima e ao mesmo tempo histórica sobre a Ucrânia, entrelaçando memórias familiares com episódios traumáticos do país, como o referendo da independência, o massacre de Babi Yar, o desastre de Chernobyl, o colapso da União Soviética, a retirada das tropas da Alemanha de Leste e, finalmente, a invasão russa em larga escala em 2022. Em vez de uma crónica factual, o filme é descrito como uma reflexão na primeira pessoa sobre como a guerra se impõe como uma “maldição geracional“.
O Festival de Veneza decorre de 27 de agosto a 6 de setembro.

