Carta aberta divide Veneza: Biennale evita condenar Israel, Semana da Crítica denuncia genocídio

(Fotos: Divulgação)

Prestes a arrancar a sua 81ª edição esta semana, o Festival de Veneza (27 de agosto – 7 setembro) viu a questão da Palestina tornar-se central no debate político em torno do certame. Este sábado, 22 de agosto, um grupo de cineastas e profissionais da indústria lançaram uma carta aberta em que pedem uma posição clara e corajosa da Biennale, e das suas seções paralelas, diante do conflito existente em Gaza.

Entre os signatários italianos da iniciativa Venice4Palestine (V4P) estão Marco Bellocchio, Matteo Garrone e Alice Rohrwacher. A eles juntam-se nomes internacionais, como Abel Ferrara, Ken Loach, Audrey Diwan, vencedora do Leão de Ouro em 2021, além dos cineastas palestinianos Arab e Tarzan Nasser, premiados este ano em Cannes por Once Upon a Time in Gaza. O documento denunciava “o genocídio em curso em Gaza e a limpeza étnica em toda a Palestina perpetrada pelo governo e exército de Israel”, afirmando que ninguém poderá alegar desconhecimento dos factos diante das imagens que circulam há quase dois anos na comunicação social.

A pressão do movimento levou a uma resposta imediata da Biennale di Venezia, entidade organizadora do festival. Em comunicado, a Mostra afirma que sempre foi “um lugar de discussão aberta e sensibilidade para com as questões mais urgentes da sociedade e do mundo”. Como provas, citou a seleção de filmes que abordam diretamente a guerra: The Voice of Hind Rajab, da tunisina Kaouther Ben Hania, sobre a morte de uma menina palestina em Gaza, e Of Dogs and Men, do israelita Dani Rosenberg, ambientado após os ataques de 7 de outubro. Ainda assim, a declaração evitou condenar explicitamente Israel, limitando-se a reafirmar a disposição para “o diálogo”.

Quem adotou um tom mais duro foi a Semana Internacional da Crítica (SIC), organizada pelo Sindicato Nacional dos Críticos Cinematográficos Italianos (SNCCI), evento que decorre em paralelo ao festival. Numa nota oficial, o comité executivo classificou como “cada vez mais intolerável” a ação criminosa contra o povo da Palestina, exigindo o fim da invasão e a destruição de Gaza. A SIC declarou apoio à campanha R1PUD1A, da ONG Emergency, e convidou o público a debater o tema durante o festival, para que “o mundo do cinema não desvie o olhar do genocídio em curso”.

A 81ª edição da Mostra de Veneza começa assim marcada não apenas pelas estreias agendadas, mas também pela crescente pressão política e moral sobre o papel do cinema diante da tragédia contemporânea.

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