Ao conversar com o C7nema, durante a exibição no Brasil de “Next Door” (“Nebenan”), o seu primeiro trabalho como realizador, o ator teuto-espanhol Daniel Brühl anunciava que algo de pop viria pela frente, do cinema alemão, com a chegada de All Quiet On The Western Front, que terá lar na Netflix, no final deste mês, mas viaja por alguns festivais antes da comodidade da streaminguesfera. A 46. Mostra de São Paulo é uma delas. Tem sessão dele esta sexta, às 14h (horário brasileiro) no Espaço Itaú Augusta 1. Tem mais duas sessões à vista: no dia 24, às 20h40, no Espaço Itaú Frei Caneca 2; e no dia 27, às 18h15, no Reserva Cultural 1.
“Houve um boom de filmes alemães depois que fiz Adeus, Lenine, em 2003, que trouxeram uma nova perspetiva de criação para o cinema germânico, sendo a principal delas o direito de criar livremente, sem a necessidade de dirigismos culturais, nesta ou naquela orientação ética ou simbólica”, disse Brühl, hoje um dos mais populares atores europeus.
Ele empresta o carisma a um épico bélico que saiu do Festival Internacional de Toronto, considerado uma montra para o Oscar, com estatuto de filme de culto. Segundo os críticos do Canadá, ele é capaz de devolver à Alemanha o status de potência audiovisual de que desfrutava nos tempos de juventude de Wim Wenders, Werner Herzog e Fassbinder. Im Westen nichts Neues (All Quiet in the Western Front), foi realizado por Edward Berger, um cineasta da Baixa Saxónia, com 30 anos de carreira, nomeado ao Urso de Ouro, em 2014, com “Jack”. Ele traz agora uma releitura do romance homónimo publicado por Erich Maria Remarque (1898-1970) em 1928, nas páginas de um jornal, o “Vossische Zeitung”.
No ano seguinte, o texto saiu em livro e transformou-se num best-seller. Em 1930, Lewis Milestone (1895-1980) levou a prosa de Remarque às telas e ganhou o Oscar de melhor realização pelo empenho, esbanjando destreza. Pode haver uma nomeação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para a versão atual, de Berger, uma vez que foi o filme escolhido pela indústria cinematográfica alemã para representar o país na disputa pela estatueta de Melhor Filme Internacional, em 2023.
O seu foco são as trincheiras da Europa entre 1914 e 1918, ou seja, a I Guerra Mundial. E a sua trajetória no streaming desperta reflexões sobre o saldo das ofensivas russas contra a Ucrânia, que assombram o planeta desde o início do ano. “Somos historicamente marcados por escolhes políticas intolerantes que se refletem entre nós, na Alemanha, em nossas paredes, em cicatrizes do Tempo”, disse Brühl, escolhido para viver Matthias Erzberger, um escritor e político alemão, que se pronunciou contra o espírito bélico da sua pátria em 1917.

Erzberger foi assassinado em 1921 por um grupo terrorista de direita. Num atentado anterior, em janeiro de 1920, ele – então ministro das Finanças – ficara apenas ferido. No dia 26 de agosto de 1921, quando fazia uma caminhada durante as férias em Bad Griesbach, na Floresta Negra, foi baleado por dois ex-oficiais da Marinha, integrantes da Organisation Consul, uma célula direitista. Os agressores fugiram para o exterior, voltando ao território alemão pouco mais tarde, beneficiados por uma amnistia concedida pelos nazis, que perdoava os “crimes cometidos em nome do interesse nacional”. Já durante a República de Weimar, conforme chocava o ovo da serpente do nazismo, o assassinato foi considerado um “ato heroico”.
“Existe muito que nós, europeus, ainda precisamos conversar. Aprendi por meio das regras do meu ofício de ator que temos os nossos momentos de desespero e que é preciso saber domá-los. Aprendi a me resgatar. Mas, e a História?”, disse Brühl ao C7nema.
Fiel à trama de Remarque, o filme de Berger segue os adolescentes Paul Baumer (Felix Kammerer) e os seus amigos Albert e Muller, que se alistam voluntariamente no exército alemão, animados por uma onda de fervor patriótico que se dissipa rapidamente quando enfrentam as realidades brutais da vida na frente de combate. Os preconceitos de Paul sobre o inimigo e as suas certezas políticas acerca do conflito logo se desmoronam. Entretanto, em meio à contagem regressiva para um armistício, construído a partir do trabalho de Erzberger (Brühl), Paul deve continuar a lutar até o fim, sem outro propósito que não seja satisfazer o desejo dos mais altos escalões de hierarquia de acabar com a guerra numa ofensiva alemã.
A Mostra de São Paulo segue até ao dia 2 de novembro.

