Steven Spielberg passou boa parte da sua carreira a olhar para o céu e para as estrelas, mas raramente esse olhar era tão incisivo nas figuras extraterrestres que criava, como o era para as personagens humanas que estabeleciam o contacto. Se olharmos atentamente para Close Encounters of the Third Kind, E.T. ou War of the Worlds, o extraterrestre nunca era apenas um extraterrestre, mas uma porta de entrada para o desconhecido, aproveitando sobretudo o realizador para falar da infância, da família e de perda, ao mesmo tempo que fazia ecoar uma desconfiança perante as instituições políticas e corporativas e a forma como estas tentam controlar a verdade.
Até quando esse desconhecido não vinha das estrelas, como em Jaws e Jurassic Park, Spielberg focava-se principalmente em humanos confrontados com dilemas morais, científicos, económicos e políticos, fosse pela ressurreição de criaturas do passado para as transformar em mercadoria, fosse pela ocultação de informação perante a existência de um tubarão assassino ao largo da costa.
Disclosure Day, batizado como O Dia da Revelação em Portugal e Dia D no Brasil, segue a mesma lógica, mas com uma diferença significativa face aos seus “encontros” anteriores. O mundo em que decorre, extremamente atual, já não parte de uma certa inocência suburbana e familiar, mas revela as tensões contemporâneas ligadas a crises geopolíticas, económicas e sociais. Nesse mundo, o nosso, a eventual chegada de uma nova revelação não irrompe assim por entre uma humanidade relativamente estável, mas sobre uma civilização já em profundo desequilíbrio, talvez até demasiado polarizada para aguentar um novo abalo nas suas convicções.
O cineasta vai desenrolando lentamente um novelo conspirativo denso a partir de uma rebelião interna na Wardex, uma empresa privada contratada pelos serviços governamentais e ligada ao encobrimento da existência extraterrestre. Com duas facções com objetivos diferentes em conflito, uma delas é liderada por Noah (Colin Firth), que procura evitar a divulgação da informação classificada. No outro lado da barricada, encontramos Hugo (Colman Domingo), que, juntamente com uma dezena de dissidentes, decide avançar para a divulgação de material audiovisual recolhido, ao longo de décadas, que comprova que o contacto entre humanos e extraterrestres é real.
Por entre registos fantasiosos, científicos, históricos e até autobiográficos (veja-se The Fabelmans), Spielberg sempre soube filmar os pequenos gestos humanos perante “ideias maiores do que a vida”, sabendo com precisão o que esconder, durante quanto tempo, e quando finalmente revelar. Passando frequentemente da escala do íntimo para o coletivo, ele sempre mostrou saber como entregar espetáculo, tendo a clara noção de que não bastava apenas apresentar virtuosismo pirotécnico ou sequências de ação estonteantes, mas uma verdadeira reação humana, fosse ela através do medo antes de avistarmos um tubarão, o espanto de vermos um dinossauro ou uma nave/criatura alienígena, o silêncio e a neutralidade antes da descoberta do horror absoluto ou, claro, como aqui, a tensa espera antes da revelação.
Nesse sentido, Disclosure Day é um novo exemplo da sua destreza em olhar para os humanos perante acontecimentos grandiosos, ainda que tropece a meio caminho, com consequências no ritmo, no tratamento esquemático de algumas das questões primordiais que levanta. Se, na observação do trauma, que também aborda, reserva o confronto com o tema para o momento da própria revelação, já na questão da fé o problema torna-se particularmente evidente, pois esta surge reduzida a uma formulação teórica redutora e talvez até ingénua sobre Deus. Se M. Night Shyamalan soube trabalhar isso de forma extraordinária em Signs (2002), onde a fé não era uma mera tese a defender, mas uma ferida pessoal feita de luto, coincidências e na necessidade de voltar a acreditar, Spielberg escorrega na sua abordagem e dramatização, reduzindo o conflito a uma troca de argumentos didática entre duas personagens. Mais tarde, percebemos que a intenção dessa discussão existiu sobretudo para dar funcionalidade ao final, e não para abrir uma verdadeira inquietação ou reflexão.
No brilhante conjunto de atores reunidos nesta típica aventura spielbergiana, Josh O’Connor, Colin Firth, Colman Domingo e Eve Hewson mostram-se eficazes na disposição dos dilemas humanos e ambições divergentes, mas é Emily Blunt que emerge como a verdadeira força, dando corpo (e até voz) à vertigem da revelação sem cair no excesso. Por isso mesmo, dizer que estamos perante uma das melhores interpretações do ano não é hipérbole.
É também através dela, e da forma como o elenco ancora uma experiência emocional concreta, que Disclosure Day chega até nós como uma continuação natural do trabalho do cineasta, a que se juntam alguns dos seus cúmplices habituais, como John Williams na música, David Koepp no argumento e Janusz Kamiński na direção de fotografia. No seu registo clássico de entretenimento reflexivo, o autor volta a questionar se estamos efetivamente preparados para uma revelação capaz de abalar as nossas convicções. Uma pergunta que se prolonga até bem depois da chegada dos créditos finais.





















