Num mundo do entretenimento inundado por docu-realities familiares centrados em celebridades, como The Kardashians, The Osbournes ou As Patrocínio, a família dos atores Kevin Bacon e Kyra Sedgwick, juntamente com os filhos, Sosie Bacon e Travis Bacon, oferece ao espectador um filme familiar de terror, um objeto infalível na provocação de risos através da forma macabra como o quarteto ensaia esta comédia metacinematográfica, enquanto um filme dentro do filme está a ser filmado e os mortos se acumulam à margem da produção.
Todas as famílias têm tradições próprias, sejam umas férias em comum, uma receita passada de geração em geração ou uma profissão partilhada. No caso dos Smith, essa tradição é fazer filmes de terror de série B. A crítica sempre foi implacável com eles, em particular com o realizador, Jack (Bacon), mas a família prossegue essa tradição, mesmo que os filhos, Ula (Sosie Bacon) e Trent (Travis Bacon), já sejam adultos, tenham outros sonhos e planeiem “sair do ninho”.
É neste cenário que avança a produção de um novo filme, Blood Moon, que une mais uma vez a família, assombrada não apenas pela ambição do rapaz de ir para a Tailândia aprender e lutar Muay Thai, mas também pelo convite feito à jovem para integrar um programa de televisão que pode lançar a sua carreira. Há ainda um vizinho particularmente incómodo, Bill (John Carroll Lynch), a “storyteller” de bastidores Maya (Liza Koshy) e a publicista Catherine (Andrea Savage), que, depois de no passado ter gerido a carreira de Ellen (Kyra Sedgwick), comanda agora os destinos artísticos de Ula.
Quando Bill, depois de estragar repetidamente as filmagens ao fazer ruído na sua propriedade, sofre um “ligeiro acidente” na cozinha, na presença de Ellen, acabando esquartejado num celeiro, todo o destino da família e da produção cinematográfica fica condicionado.
Atravessando dilemas ligados à saída dos filhos de casa, o coming of age adolescente, a comédia negra metafílmica e, claro, o horror splatter, Family Movie funciona como uma curiosa sátira ao cinema independente de baixo orçamento e, simultaneamente, como paródia afetuosa às famílias que transformam o seu dia a dia em matéria criativa para a 7ª arte. O que o espectador tem assim acesso é a uma comédia de terror assumidamente caótica, onde a fronteira entre vida familiar e produção cinematográfica se vai desfazendo à medida que os cadáveres se acumulam.
Assinado pelo próprio Kevin Bacon, Family Movie sabe jogar muito bem com o material que tem em mãos, cruzando a nossa percepção das pessoas reais por trás da obra com as suas personas cinematográficas criadas ao longo de décadas.
É assim num misto de vídeos caseiros, imagens verticais executadas para se enquadrarem em smartphones e formas de cinema dentro do cinema que Bacon surge como uma versão deformada do patriarca-realizador, obcecado em manter a família reunida através do cinema, enquanto Kyra Sedgwick explora com evidente prazer uma figura materna cuja doçura doméstica colide com a sua frieza assassina, mas sempre com um sorriso nos lábios. Já Sosie e Travis Bacon dão corpo à tensão natural de uma geração que cresceu dentro de uma circo familiar, mas que começa agora a procurar uma saída possível para lá dele, sem, claro, partir o coração ao pai e à mãe.
O resultado é uma comédia negra tresloucada, feita para entusiasmar os espectadores no circuito dos festivais, como o fez em Karlovy Vary depois de estrear no SXSW, e muitas sessões fora de horas por esse mundo fora.

















