Vencedor da secção Proxima do Festival de Karlovy Vary, Lover, Not a Fighter (Milovník, nie bojovník) é a primeira longa-metragem da eslovaca Martina Buchelová, uma história de romance jovem que se expande para além do casal, oferecendo ao espectador um retrato fragmentado de uma geração entre a busca de intimidade e a estabilidade emocional e familiar.

Dividido em vários capítulos, que se focam em diferentes pontos da história global, o filme começa com um jovem, Peťo, a pedir a Andrej para não interferir num jantar que está a ser organizado na casa de ambos entre ele, a avó e um amigo mais velho, que leva a sua filha mais nova. Tudo parece bizarro neste primeiro momento, mas depois percebemos que esse homem mais velho é o pai de Míša, que, com medo de que a filha seja lésbica, tenta de alguma forma juntá-la com Peťo. Como seria também de esperar, o jantar é super estranho para todos, preferindo Míša a companhia de Andrej, que entretanto a convida para jogar jogos de tabuleiro, iniciando aqui uma relação intensa que será rasgada por responsabilidade de Andrej, que tem um problema com o álcool e com o que vem a seguir a perder o controlo.

A partir daí, a Martina Buchelová traça um retrato de todas as figuras em cena e das suas relações, passando também pela irmã de Míša e um amigo skater dela, além de dedicar tempo ao pai de ambas e à avó de Andrej.

No meio deste combo, as personagens mais interessantes são mesmo o par romântico, com Andrej, interpretado por Adam Kubala, a surgir como alguém simultaneamente vulnerável e autodestrutivo, tentando controlar os impulsos no meio de uma profunda tristeza que o assola, como diz Peťo a certo momento. Já Míša, interpretada por Michaela Kostková, representa um raio de luz para a dinâmica do filme, adicionando camadas de lucidez onde há falta dela. 

O mais impactante de Lover, Not a Fighter é a estética de aproximação à juventude, que tanto passa pelo uso frequente da câmara à mão como o recurso a imagens de telemóvel. Essa mistura traz ao filme uma textura semi-documental moderna, à qual os close-ups e planos de pormenor frequentes adicionam proximidade ao estado interior de todas as personagens. Mas mais importante do que a fotografia é a montagem do filme, que organiza tudo de forma episódica, mas compacta, transformando toda a experiência numa espécie de diário de bordo sem qualquer linearidade, onde importam mais os gestos e ações do que as palavras, enquanto o estado emocional de cada uma delas é mais importante do que as ações que tomam.

Nesse processo, a cineasta desarruma o filme tal como as vidas expostas, revelando ansiedades, dúvidas, vícios e alguns traumas geracionais que fazem parte do processo de crescimento. O resultado é um filme tocante e incisivo nas questões que toca, ainda que a sua estrutura fragmentada produza diferentes forças entre cada um dos episódios ou perspectivas que temos pela frente.

Mas mesmo imperfeito, há algo tremendamente belo e genuíno na proposta da cineasta, que fica claramente como um nome a seguir no futuro.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
lover-not-a-fighter-quando-o-romance-e-apenas-uma-parte-da-desordemO mais impactante de Lover, Not a Fighter é a estética de aproximação à juventude, que tanto passa pelo uso frequente da câmara à mão como o recurso a imagens de telemóvel. Essa mistura traz ao filme uma textura semi-documental moderna, à qual os close-ups e planos de pormenor frequentes adicionam proximidade ao estado interior de todas as personagens.