Uma das cenas mais impactantes das últimas duas décadas do cinema é aquela em que Lubna Azabal, no papel de Nawal Marwan, em Incendies, de Denis Villeneuve, nada numa piscina pública no Canadá e, através da observação de uma pequena tatuagem num homem que está no mesmo espaço, descobre que está próxima daquele que a torturou numa prisão.
Ora, como a memória cinematográfica é uma coisa tramada, e como pequenos apontamentos cinéfilos dos realizadores inevitavelmente nos condicionam o olhar, é impossível não sentir um sobressalto quando a primeira cena de Hot Water mostra Lubna Azabal a nadar numa piscina. Certamente não será coincidência que Ramzi Bashour, cineasta sírio-americano aqui em estreia nas longas-metragens, escolha começar assim, talvez como gesto que funciona como eco, homenagem ou simples piscadela cinéfila, mas também para convocar uma memória pesada e depois nos conduzir para um filme de tom completamente diferente. É que Hot Water é uma comédia dramática leve, em formato de road movie americano, carregada de nostalgia e ternura, mesmo que no seu percurso tenha a mesma base de Incendies: a busca por identidade e pelo sentido de pertença.
A tentar deixar de fumar há três semanas, recorrendo à natação como forma para relaxar e às mandarinas como substituto da nicotina, Lubna Azabal é Layal, uma professora de árabe, libanesa, a viver no Indiana com o filho Daniel, interpretado por Daniel Zolghadri. Quando este é expulso do liceu por causa de uma atitude violenta, a única hipótese de conseguir acabar os estudos e seguir para a faculdade é mudar de estado e ir viver com o pai, de quem está afastado, na Califórnia. A ideia inicial era encontrarem-se a meio do caminho, mas a impossibilidade de o pai se juntar aos dois nesse percurso obriga mãe e filho a fazerem toda a viagem.
Coming-of-age de meditação sobre as diferenças geracionais e de aproximação familiar, além da tomada de consciência de responsabilidades, Hot Water é um filme de recomeços e de saber lidar com os constrangimentos da vida com as ferramentas que se tem. Por isso mesmo, não se estranha a produção executiva de Max Walker-Silverman, que, no seu intenso Rebuilding, colocava Josh O’Connor a encontrar uma nova saída e força para recomeçar a vida após ver a sua propriedade rural completamente destruída num incêndio. Também por isso, a certa altura, e dentro das parcas personagens secundárias que são aqui introduzidas, aparece Dale Dickey, atriz central de A Love Song, desta feita no papel de uma amiga distante do pai que vai ceder a sua propriedade à dupla para descansar umas noites e pensar no que fazer. E dar também abraços, pois qualquer pessoa tem de receber pelo menos oito abraços por dia.
Nessa travessia pela América, o foco nunca está tanto na paisagem geográfica, ainda que existam algumas paragens pelo caminho, mas na relação entre mãe e filho, nas suas diferenças e aproximações, e no perceber do peso das escolhas e das responsabilidades por parte de Daniel, enquanto Layal, por seu lado, descobre que proteger um filho também passa por lhe dar espaço para falhar, errar e encontrar a sua própria forma de estar no mundo.
Com momentos hilariantes, particularmente na passagem por Las Vegas e na chegada à Califórnia e ao local onde vive o pai, Hot Water é um daqueles produtos que fizeram do Festival de Sundance, onde estreou, um lugar de exceção para pequenos objetos fílmicos focados em afetos imperfeitos, onde a viagem serve menos para chegar ao pai do que para mãe e filho reaprenderem a olhar um para o outro. Em Karlovy Vary, por onde passou na secção Horizons, o filme foi recebido com novo fulgor, nem que seja pelo facto de, apesar de ser uma história pessoal e única, ter tudo de universal.



















