Um dos títulos mais próximos do cinema comercial e do crowd-pleaser clássico dentro da competição ao Globo de Cristal, Chica Checa é a quarta incursão nas longas-metragens de Šimon Holý, cineasta (e DJ) que anteriormente nos ofereceu histórias marcadamente centradas no universo feminino.
De uma bailarina em crise (Mirrors in the Dark) até ao retrato de mulheres ligadas ao cinema e às suas zonas de insegurança (Hello, Welcome), Holý faz agora uma travessia para o confronto entre uma mulher de meia-idade, Zdena (Pavla Tomicová), que vive numa aldeia checa, bem perto da casa onde mora a mãe, e o filho, Lukáš (Jan Cina), que vive em França. Entregue à solidão e com a mãe doente, Zdena consegue convencê-lo a regressar a casa para ver a avó uma última vez, mas esse retorno traz consigo não apenas a revelação de que o filho é homossexual, como também a de que ganha a vida em espetáculos drag, usando o nome artístico Chica Checa.
Ensaio sobre solidão e maternidade, Chica Checa vai funcionando como tragicomédia ligeira sobre a distância entre gerações e a aceitação, ganhando uma nova dimensão quando Lukáš decide fazer um espetáculo para a avó, como se fosse uma antiga estrela da canção que ela vira uma vez num espaço fabril, ainda nos tempos da Checoslováquia. É nessa performance, na aceitação por parte de Zdena da orientação sexual do filho e da sua profissão, além da abertura em dizer ao pequeno mundo onde vive o que ele faz, que reside o centro nuclear do filme, que coloca depois uma questão importante em cima da mesa: o que resta a esta mulher quando deixa de viver exclusivamente para tratar da mãe doente?
Atores de diferentes gerações, Pavla Tomicová e Jan Cina entregam propostas seguras em registos distintos, marcando também uma diferença geracional na forma de atuar: ele mais naturalista, ela mais teatral, inflacionando o confronto entre a dupla que, na verdade, se resolve de uma noite para o dia seguinte, com a homofobia latente da mãe a transformar-se em aceitação natural porque a maternidade, segundo a lógica do filme, supera qualquer intolerância.
O que se segue são alguns diálogos e ações curiosas que mostram outro lado da moeda, aquele em que Lukáš passa de “vítima” das palavras sobre como deve viver a sua vida a perpetrador de uma pressão semelhante em relação à mãe. Aqui o filme ganha alguma força, mas, mais uma vez, todas as resoluções que se seguem são extremamente facilitistas, como se Chica Checa tivesse forçosamente de acabar bem. O melhor exemplo é a intromissão final de um potencial interesse amoroso de Zdena, um homem que lhe dá boleia até casa, num desenvolvimento que soa artificial em quase tudo.
Essa artificialidade estende-se à estética, onde progressivamente o registo mais escuro e frio do uso de cores, derivado da doença da avó e da vida da mãe, dá espaço a um tom mais luminoso, colorido e acessível quando Lukáš entra em cena. Nunca existe qualquer rasgo de risco formal, preferindo o cineasta alinhar o seu objetivo conciliador e comercial com uma estética cinematográfica e televisiva agradável ao olhar leigo.
O resultado é um filme curioso na sua dimensão familiar, mas nada arrojado e muito menos verdadeiramente reflexivo. É uma obra que desde o primeiro momento procura uma audiência vasta, sem verdadeira chama ou audácia para lá da proposta conceptual. Nesse aspeto, e na mesma índole, filmes de aceitação como The Parade (2011), de Srđan Dragojević, ou Pride (2014), de Matthew Warchus, tinham mais para oferecer, ainda que em jogo estivesse uma aceitação coletiva e não pessoal ou familiar.


















