Tony Gatlif apresenta “Ange”: “A música faz parte da minha história e da minha filmografia”

(Fotos: Divulgação)

Um dos momentos mais marcantes da noite de 22 de maio de 2025 no Festival de Cannes aconteceu no Cinéma de la Plage, onde a estreia mundial de Ange, de Tony Gatlif — realizador de filmes como La Tête en ruine (1975), La Terre au ventre (1978), Canta Gitano (1981), Gadjo Dilo (1997), Exils (2004) e Tom Medina (2022) — foi precedida por um concerto de Arthur H e dos músicos do filme.

Em “Ange” seguimos um músico homónimo sem raízes que, aos 60 anos, sente a necessidade de se reencontrar com o seu velho amigo Marco. Solea, a filha de uma antiga paixão, que está em revolta contra o mundo, junta-se a ele nesta viagem. Juntos, eles vão redescobrir o caminho para a alegria.

Foi no contexto da exibição do filme no Festival de Cannes de 2024 que conversámos com o cineasta francês sobre a relação entre música e cinema, o tema do regresso e os desafios de continuar a fazer um cinema livre. 

Maria de Medeiros e Arthur H. em “Ange”

Antes da projeção do filme na praia houve uma festa com músicos. O que representa isso para si?

A minha presença aqui é a de um cineasta como os outros, mas com algo mais: trago a música. A música faz parte da minha história pessoal e da minha filmografia, não como simples acompanhamento, mas como algo que se funde com o filme, com o som, com tudo. Não é uma música que compensa — é uma música que vive dentro do filme. E isso traz alegria. A música é emoção, mas sobretudo alegria. Por isso faz sentido esta festa antes da projeção: o filme fala de música, e aqui estou em casa.

Para si, música e cinema são inseparáveis?

Sim. Não estão dissociados. Justapõem-se, misturam-se, fazem parte do mesmo gesto.

Como nasceu este projeto?

Parte da figura de um musicólogo que se parece comigo. Passei 50 anos na estrada à procura de música e conheci muitos. São pessoas discretas, pudicas, com histórias muitas vezes dolorosas. Não estão ali para se mostrar, mas para servir a música que encontram.

Esse percurso implica deixar a família?

Claro. Não se parte dois dias — parte-se um ou dois anos. Deixa-se tudo. E o que me interessava era o regresso. Nos meus filmes falei sempre da partida; aqui falo do regresso. Como na mitologia, como Ulisses. É aí que a história começa. Quando regressamos, percebemos muitas vezes que não dissemos às pessoas que as amávamos. E neste caso, ele diz isso através da música.

É possível ter uma vida familiar assim?

Sim, mas com outras famílias, noutros lugares. É uma escolha. Não há ódio nem conflito — há separações e recomeços. Pode-se partir, criar outra família, regressar, voltar a partir. É assim que algumas pessoas vivem.

As relações do filme são ficcionais?

São inspiradas nos musicólogos que conheci. Muitos têm vidas emocionais difíceis. Quando partem, deixam sempre alguém — é uma pequena catástrofe. Mas não é egoísmo, é uma escolha de vida.

Como surgiu a colaboração com Maria de Medeiros?

Quando escolhi o Arthur como protagonista — porque ele representa tudo: corpo, voz, música — precisava de alguém que, num simples olhar, trouxesse de volta o amor. A Maria tinha isso. Com o olhar, o sorriso, conseguimos sentir todo o passado entre as personagens.

Qual é o papel da música no seu percurso artístico?

A música vem primeiro, antes da palavra. Depois vem a imagem. Quando era criança, aprendi a ler e a escrever com imagens, com filmes. Portanto, para mim, a imagem veio antes da linguagem.

Arthur H. em “Ange”

O guião é muito fechado ou há espaço para o acaso?

É muito escrito — demorei cinco anos. O simples é o mais difícil. Mas há abertura ao acaso verdadeiro, não fabricado. Acredito nisso. Há momentos em que algo acontece e transforma o filme.

Pode dar um exemplo?

Estávamos a filmar numa carrinha, com mais de vinte pessoas. Senti que vinha tempestade e disse para filmarmos imediatamente. E começou a cair granizo. Isso não se escreve. Nenhum argumentista pode prever isso. É o acaso quando estamos abertos a ele.

Foi difícil financiar o filme?

Muito. Hoje é ainda mais difícil do que quando comecei, nos anos 70. Tudo está formatado. Ou fazemos o que querem, ou fazemos o que queremos com menos meios. Eu escolho a liberdade.

Mas o maior desafio foi esse financiamento?

Não. Tenho pessoas que me respeitam e me acompanham, embora poucas. E sei trabalhar com poucos meios. Já fiz filmes com equipas mínimas e resultados fortes.

Já está a trabalhar num novo projeto?

Sim. Quando acabo um, começo outro.

Trabalharia com plataformas de streaming?

Não sei fazê-lo. Não partilho a mesma visão. Trabalho com pessoas que fazem cinema, não com quem o condiciona. E somos cada vez menos.

Hoje toda a gente pode fazer cinema?

Sim, qualquer pessoa pode filmar. Mas nem todos podem ser autores-realizadores.

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