Já lá vão quase 35 anos, mas, assim que se sentou diante de três jornalistas portugueses, em Paris, no início do ano, a estrela da comédia francesa Didier Bourdon recordou imediatamente o tempo que passou por cá, no Alentejo, a filmar com Raoul Ruiz, em 1991. “Adorei. É uma memória muito bonita. Na altura, já descobríamos grandes garrafas de vinho com Raoul Ruiz. O filme era com John Hurt, que, tal como o Raoul, também já morreu. Passámos por Lisboa, Coimbra e Estremoz. Foi fantástico.”
Sinónimo de sucesso nas bilheteiras francesas, seja ao lado de figuras como Christian Clavier — com quem o veremos brevemente no segundo capítulo de Oh Lá Lá! —, seja em filmes como Semana Sim, Semana Não ou Época de Caça, Bourdon tornou-se um dos nomes mais requisitados da comédia popular francesa, capaz de transformar personagens aparentemente simples em sucessos com apelo junto do grande público. Depois de ter triunfado em Época de Caça — visto por cerca de dois milhões de espectadores em França —, no papel de um caçador rude, mas de grande coração, ele regressa agora à personagem numa sequela, Mais Uma Época de Caça, que voltou a conquistar as salas francesas, ultrapassando a marca de um milhão de espectadores. Esta semana chega aos cinemas portugueses.

Em 2023, a dupla Frédéric Forestier e Antonin Fourlon trouxe até nós a história de um casal parisiense que troca a capital francesa por uma grande casa em Saint-Hubert-des-Bois, uma aldeia dominada por caçadores. Dois anos depois, a mesma equipa regressa à aldeia, onde esse casal, já estabelecido no local, leva agora uma vida tranquila e agradável, embora comece a sentir falta de amigos da sua geração. O desejo parece concretizar-se quando Stanislas, interpretado por Maxime Gasteuil, filho da personagem vivida por Didier Bourdon, decide regressar à terra. Só que a sua chegada traz muito mais do que o casal esperava — e não exatamente pelas melhores razões.
“Faço parte de um grupo humorístico muito conhecido em França, Les Inconnus, e fizemos um sketch sobre caçadores que ficou muito famoso. Talvez também me tenham escolhido para este filme por causa disso”, explicou Bourdon ao C7nema, acrescentando que para a sua personagem inspirou-se em algumas pessoas que conheceu ao longo da vida. “Quando se constrói uma personagem, é sempre um trabalho entre nós, a pessoa observada e o papel. É preciso pôr sempre um pouco de nós. Talvez eu também tenha um pouco de rudeza, embora com o tempo se tenha atenuado. A minha personagem é alguém que não se deve provocar demasiado, porque pode sair dos eixos.
Afirmando que gosta de trabalhar muito antes das filmagens, de receber o guião com antecedência, de o trabalhar e de o aprender, mas não tudo de uma vez, o ator sublinha a importância do tempo nos projetos, bem como a existência de alguns maneirismos e detalhes que trazem personalidade às figuras que interpreta: “Aqui, por exemplo, decidi que a minha personagem usaria sempre a mesma boina. Trabalhámos isso com os realizadores. Ele não é um American Gigolo, não está preocupado em seduzir. Ouve a mulher, mas finge que não. E a cadelinha é muito importante na sua vida: não consegue sair sem ela, porque é uma forma de mostrar que tem coração. E também tem responsabilidades. Não é necessariamente o presidente da câmara, mas é uma espécie de notável da aldeia.”

Afirmando que “escolhe sempre os filmes que tem vontade de fazer”, Bourdon admite que gostaria agora “de fazer papéis um pouco diferentes”, embora reconheça que, nas comédias, uma paixão nascida cedo, quase por instinto, mas nunca separada do trabalho, “sempre foi muito mimado”. “Gostei logo da comédia”, recorda, lembrando que, apesar do gosto pela paródia, em pequeno era sempre “bom aluno”, pois o pai obrigava os filhos a levarem os estudos a sério. O caminho, porém, estava delineado, mesmo quando um professor de matemática ainda o tentou convencer a seguir essa área, ele respondeu que o seu desejo era ser ator. “Fiz teatro muito cedo, e tornou-se uma paixão”, diz-nos, sem saber exatamente de onde veio esse impulso. Ainda assim, Bourdon encontra talvez uma pista no pai, que “gostava de fazer piadas”, mas também na música, outra presença constante na sua vida. “Faço sempre as coisas com coração”, destaca, acrescentando que encontrou os realizadores antes de dar o sim à produção e que gostou muito deles. “Foi igual no Oh Lá Lá!. Essa é a base. Nunca é o dinheiro que decide. Às vezes propõem-nos dinheiro, mas a minha mulher ou a minha assistente dizem: ‘Vai ficar triste, vai arrepender-se.’ E escolho dizer não.”
E quando questionado sobre se haveria alguma figura que gostaria de ter interpretado no cinema, ele responde com um nome surpreendente: Drácula. “Gosto muito dessa figura, porque tem também um lado humorístico”, afirma, evocando a sua predileção por personagens ambíguas e perturbantes, aquelas que são capazes de revelar humanidade e violência no mesmo gesto. Por isso mesmo, ele relembra um telefilme muito negro de Xavier Durringer onde interpretava um pai que mata o filho logo no início, num papel que lhe interessou pela violência e pelo desconforto. Para Bourdon, a fronteira entre o drama e o horror não está assim tão distante da comédia, sendo a montagem que decide qual delas ganha o foco. “Na comédia, quando somos odiosos, isso pode fazer rir. Quanto mais horríveis somos, mais longe podemos ir. É isso que me agrada: quando se vai até ao fim de alguma coisa.”






