Um pouco por toda a sua obra, a chilena Valeria Sarmiento tem questionado a relação entre a memória e o inconsciente. Em Detrás de la Lluvia, apresentado em competição pelo Globo de Cristal no Festival de Karlovy Vary, volta a olhar para o passado e para a forma como aquilo que escondemos, reprimimos ou recusamos nomear continua a agir sobre o presente.
No centro daquele que Valeria Sarmiento afirmou, no KVIFF, ser o seu último filme — uma obra fotografada a preto e branco, com acentuada inspiração noir, pelo português Acácio de Almeida, colaborador recorrente da realizadora desde Notre Mariage (1984) — está Sofía Belmar, interpretada por Paula Prado. Após concluir os estudos de Psicologia em Valparaíso, a ela regressa a Valdivia, onde a descoberta do corpo de uma menina, vítima de violência sexual e homicídio, desperta nela as memórias dos abusos que sofreu durante a infância.
Com uma investigação em curso, a polícia acredita que poderá existir uma ligação entre o crime atual e outros casos ocorridos no passado, dos quais Sofía terá sido a única vítima a escapar com vida. Por esse motivo, e à margem dos procedimentos oficiais, ela é contactada por um agente policial para colaborar na investigação, algo que aceita com relutância e uma distância controlada.
Embora o filme atribua importância ao caso, apresentando primeiro um idoso com défice cognitivo como potencial suspeito e apontando depois para outra personagem, o foco de Sarmiento nunca deixa de estar em Sofía, nas várias dimensões do seu trauma e nos mecanismos de repressão que desenvolveu. Isso manifesta-se tanto na forma distanciada como acompanha a investigação policial como na dificuldade em permitir uma maior intimidade com Julio (Cristián Arriagada), advogado responsável pela defesa do idoso acusado pelo Ministério Público, ou ainda na relação com a família, com particular destaque para a avó, acamada após um aparente acidente junto ao mar.
Um pouco à semelhança de Pipes, também em competição pelo Globo de Cristal, Detrás de la Lluvia contraria as expectativas habitualmente associadas às narrativas de mistério, em que a resolução do crime tende a acompanhar a resolução psicológica da protagonista. O desfecho revela, porém, que esse nunca foi o principal interesse de Sarmiento. Mais do que esclarecer o caso, importa-lhe observar como a investigação reabre o passado de Sofía, desestabiliza o presente e condiciona as suas relações.
O caso policial funciona, pois, como uma ferramenta ao serviço da psicologia da protagonista, numa tentativa de perceber quantos crimes terão ainda de acontecer até que ela consiga enfrentar o passado e ultrapassar as barreiras que este continua a lhe erguer.
Com banda sonora de Jorge Arriagada e Nicolás Ahumada, o filme amplifica o melodrama e os simbolismos em torno de Sofía. A chuva — evocação dos riscos de uma antiga cópia de Os Sapatos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger, que, segundo Sarmiento, a mãe lhe ensinou a “olhar por detrás”— pode ser lida como metáfora de uma memória fragmentada, que encobre aquilo que a protagonista ainda não consegue enfrentar. Cabe-lhe a ela decidir se continua a manter o passado à distância ou se olha finalmente para ele.
É nesse conflito que Paula Prado se destaca, com uma interpretação contida, marcada menos pela exteriorização do sofrimento do que pelos silêncios, pelos gestos defensivos e por uma inquietação latente. A atriz torna visível a tensão entre a aparente estabilidade de Sofía e a memória reprimida, evitando reduzir a personagem à condição de vítima ou transformar o filme num simples mistério criminal à espera de resolução.






















