Cerca de uma década depois da sua passagem pelo Brasil com Zama, Lucrecia Martel regressa ao país, agora com um duplo compromisso: um debate e uma masterclass. Ambos envolvem a carreira da sua nova longa-metragem, o ensaio documental Nuestra Tierra, obra que será apresentada no Rio de Janeiro como parte da programação do FID — Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção. Mais do que uma visita de prestígio, o regresso da realizadora argentina representa uma oportunidade para revisitar uma filmografia que redefiniu o cinema latino-americano nas últimas duas décadas.
Cultuada como uma das vozes mais inventivas do cinema contemporâneo, Lucrecia tem ampliado, filme após filme, as inquietações políticas presentes em toda a sua obra. A realizadora de O Pântano (La Ciénaga) apresenta Nuestra Tierra, distinguida após a sua estreia mundial no Festival de Veneza de 2025, numa sessão única no Estação Claro Rio, seguida de uma conversa com o público mediada por Eduardo Valente. No dia seguinte, orienta uma masterclass gratuita no Teatro Sesc Ginástico, iniciativa igualmente integrada no FID.
Nascida em Salta, no noroeste da Argentina, Martel transformou a sua cidade natal num espaço simbólico do cinema mundial. Foi ali que encontrou os ambientes abafados, as tensões familiares e as fraturas sociais que moldaram O Pântano, distinguido na Berlinale de 2001 e hoje considerado um dos marcos do chamado Nuevo Cine Argentino. Desde então, consolidou uma linguagem singular, na qual o desenho sonoro, os enquadramentos fragmentados e a atenção aos corpos revelam aquilo que permanece invisível nas estruturas sociais.
Essa pesquisa estética atravessa toda a sua filmografia, de A Menina Santa a Zama, passando por experiências como Terminal Norte e Cornucopia, realizado com Isold Uggadottir a partir de um espetáculo de Björk. Em cada projeto, Martel procura novas formas de relação entre imagem, som e memória, recusando narrativas convencionais.
Em Nuestra Tierra, essa investigação ganha um peso histórico particular. O documentário acompanha as estratégias utilizadas pelo Estado argentino para negar à Comunidade Chuschagasta o direito ao seu território ancestral. Partindo do julgamento, em 2018, dos assassinos do líder indígena Javier Chocobar — morto em 2009 —, de conversas com os habitantes da comunidade e dos seus arquivos fotográficos, o filme reconstrói uma história que atravessa mais de quatro séculos, do século XVII aos nossos dias.
Mas Martel deixa claro que o seu objetivo não é apenas reconstruir um processo judicial. Para a cineasta, “o mundo parece inclinado para a autodestruição”. O ódio reacende-se através das promessas de guerra e de discursos que recorrem a argumentos de natureza quase celestial para justificar a violência. Enquanto os nacionalismos alimentam conflitos e deslocações forçadas, pergunta qual poderá ser o destino comum da humanidade. É precisamente por isso que defende a necessidade de novas estruturas narrativas, capazes de romper com modelos de oposição que conduzem inevitavelmente ao confronto.
A realizadora vai ainda mais longe ao afirmar que Nuestra Tierra procura desmontar os mecanismos racistas inscritos na própria língua, bem como a linguagem burocrática dos documentos oficiais, tantas vezes responsável por negar direitos fundamentais. “Um documento histórico é um guião para uma cena inexistente, ao serviço de quem o assina”, observa. E acrescenta que deseja um cinema útil, entendendo a utilidade como uma contribuição efetiva para o bem comum. “A América Latina oferece inúmeras oportunidades para isso. Ainda há muito por fazer.”
É essa conjugação entre rigor formal, pensamento político e invenção cinematográfica que faz de Lucrecia Martel uma autora decisiva do nosso tempo. A sua passagem pelo Rio de Janeiro reafirma o lugar de uma cineasta que continua a desafiar a linguagem do cinema para compreender um continente cujas histórias permanecem longe de estar concluídas.

