Culpa coletiva, bullying e os infindáveis ciclos de violência e crueldade são o foco do extremamente desconfortável 3 Weeks After (3 nedelje posle), filme do sérvio Miroslav Terzić que parte de uma inocente viagem de estudo de uma turma à Bulgária para confrontar a violência banalizada entre colegas, a cobardia dos adultos e o silêncio institucional.
É com um enorme incêndio numa habitação na cidade que o filme arranca, seguindo depois o espectador, num jeito de plano-sequência, dois jovens a caminhar. Estão carregados com mochilas, a caminho de um local onde um autocarro os vai transportar, juntamente com os colegas, numa viagem organizada pelos professores. Depois de algumas picardias iniciais a que assistimos durante o trajeto, a certa altura o autocarro não consegue avançar devido à derrocada de pedras num túnel. Numa tentativa de manobra para sair da situação, choca e fica irremediavelmente imobilizado, levando todos a caminharem até uma pousada, onde irão passar a noite.
Se numa primeira fase a violência surge sobretudo como simbólica, já naturalizada nos gestos e nas piadas, no percurso a pé o bullying começa a ganhar formas inenarráveis, com o próprio Terzić a pôr na boca de um professor uma frase que ecoa em todo o filme: “A cada geração que surge, os miúdos são piores”, e mais cruéis.
E é a isso mesmo que assistimos, de forma tão angustiante como num filme de Michael Haneke. No centro do turbilhão está Tsotsa, interpretado por Jovan Ginić, vítima de bullying por parte de vários colegas, ao ponto de as agressões estarem normalizadas, tal qual respirar ou beber água. Não se trata apenas de reduzir tudo à ideia de que “os jovens são maus”, como o tal professor faz, mas de observar um mecanismo de grupo em que Tsotsa se torna um saco de pancada para a libertação grupal das tensões. Já a escola, os professores e a pousada funcionam, assim, como espaços onde a autoridade falha, mas onde as hierarquias, exclusões e punições informais continuam (alegadamente) a existir
Transformando o microcosmo escolar numa alegoria para toda a sociedade, Terzić vai disponibilizando informação aos poucos quanto a episódios anteriores entre os diversos alunos que nos levaram até ali, entrando por outro tema extremamente sensível, o do suicídio. Não do ponto de vista de explicar por que razão outro colega da turma, Andrij, se matou, mas a partir do olhar e da reação da comunidade à morte deste, num jogo de (des)culpabilizações.
Esteticamente, 3 Weeks After trabalha sempre o seu registo de tensão e a atmosfera permanentemente pesada de forma muito controlada, com a mise en scène e a direção de fotografia a tirarem partido das locações e de um design de produção milimétrico que, ao contrário da ordem que à partida impõe, serve de reduto para o caos e desordem.
Por estas razões, uma viagem escolar que deveria ser um sinal de movimento e libertação torna-se num permanente confinamento claustrofóbico, onde a inocência é absolutamente abalroada pela mais absoluta crueldade. E, vindo de um cineasta sérvio, atento a uma região marcada por memórias recentes de violência, culpa coletiva e silêncios difíceis de quebrar, esse retrato de uma comunidade incapaz de travar os seus próprios ciclos de agressão ganha uma ressonância ainda mais dura.






















