Num tempo pré-Google, em que o mundo era dos marinheiros, a palavra era o caminho para salvar a Humanidade de tombar novamente nos mesmos precipícios que arruinaram os sonhos de prosperidade por ela batizados de muitas formas… entre elas, “democracia”, “socialismo” e, mais recentemente, “empatia”. Christopher Nolan tem-se debruçado sobre a fronteira que os verbos não represam desde que filmou a batalha de Dunquerque, em 2017, para entender o peso que um discurso de Winston Churchill (1874–1965) teve na manutenção do estado de espírito — e de presença — dos ingleses na Segunda Guerra Mundial. O cineasta é britânico. Vem de Londres. Chegou às artes, numa casa de família pobre, pela literatura. Do cinema, com 2001 (1968), de Stanley Kubrick (1928–1999), retirou um sentido de grandiosidade — e grandiloquência — que passou a ser a baliza da sua evolução como cineasta, numa linha de desenvolvimento assente em parâmetros de excelência artística que alcança, de várias formas, a maturidade plena em The Odyssey, a estreia mais celebrada — e, ao mesmo tempo, temida — desta temporada. Ali, depura, pelas vias da poesia, o estudo sobre o quanto as narrativas podem ser pilares de salvação… e de exorcismo.
Formalmente, por se tratar de um diálogo com uma matriz artística literária — o poema homónimo escrito pelo grego Homero, no século VIII a.C. —, A Odisseia de Nolan leva-nos a recordar Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, inspirado no livro No Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Nessa produção galardoada com a Palma de Ouro em Cannes, um agente do Estado era enviado para longe de casa, a fim de levar a barbárie a um lugar classificado como… bárbaro. Coppola fazia o capitão Willard (Martin Sheen) ir parar aos confins da Ásia para matar um colega de farda de patente mais elevada, o coronel Kurtz (Marlon Brando), que fora capaz de organizar uma civilização a partir de códigos desconhecidos para os EUA. A missão atribuída a Odisseu — um Matt Damon como jamais se viu, agigantado por tanta gana e garra de representar — não é diferente. Deve ir até Troia e acabar com aqueles que detêm a bela Helena (Lupita Nyong’o). A tarefa fará jorrar sangue no Velho Mundo: o dos inimigos e o das suas hordas.
Coppola concebeu Apocalypse Now como um mergulho no inferno de um mundo que perdeu todo e qualquer respeito pela vida. “This is the end…”, cantava Jim Morrison na banda sonora desta sua releitura de Conrad. Espécie de Apocalypse Now troiano, A Odisseia também se deixa besuntar pela loucura que a disputa pelo poder gera, nas suas metástases. E, da mesma forma que o suarento e amargurado Willard só vê pesar e arrependimento ao atravessar matas perfumadas a napalm, Odisseu arrasta os grilhões da culpa. É um herói com um fardo. Os heróis de guerra que passaram à posteridade na ficção — de Tito Andrónico a John Rambo — são-no, em geral.
Ezra Pound (1885–1972), poeta como Homero, fez do verso uma instância para cantar guerras. Nos seus Cânticos, entoa: “Aquilo que amas verdadeiramente permanece; o resto é escória”. É esse o ethos de Odisseu. O amor por Ítaca, a sua pátria, justifica toda a brutalidade que inflige a outros, até a um ciclope, figura monstruosa que, na visão de Nolan, ganha contornos de uma indisfarçável vulnerabilidade. Põe a própria tropa em risco, sem receio de sacrificar um ou outro aliado em nome do dever. De perda em perda, arrepende-se. Desfruta de um alumbramento que volta a evocar Pound: “Morreram miríades… e justamente as melhores…”.
O argumento criado por Nolan encaixa a jornada de Odisseu numa dinâmica de saltos no tempo, narrada com uma maturidade que o realizador jamais atingira no passado. Há um preâmbulo dilatado no qual vemos Ítaca num presente em que a ausência da personagem de Damon deu espaço a um ninho de serpentes. Todas querem atacar a rainha Penélope (Anne Hathaway) e, através dela, o trono. Para isso, o herdeiro Telémaco (Tom Holland) tem de sair de cena. Entre as cobras, a mais peçonhenta é Antínoo, figura que arranca de Robert Pattinson uma interpretação nas raias da perfídia — e da eficácia plena. Igualmente pérfida é Circe, feiticeira que atraiçoa as tropas de Ítaca num antropomorfismo gourmet, interpretada por Samantha Morton com uma mistura rara de misantropia e carência.
Nolan usa Homero para construir uma grande alegoria do momento em que a Humanidade deixou a linguagem ser soterrada pela ambição. O eco desse soterramento, da Grécia homérica até aos nossos tempos, desembocou na saga narrada em Oppenheimer (2023): a de um cientista que, em nome da sua pólis, cria uma bomba capaz de ceifar cidades inteiras. A diferença, na dimensão épica de A Odisseia, é que, num ponto climático, Nolan toma uma rota de vingança que recorda Ben-Hur (1959), com um esplendor semelhante ao do épico do final da década de 1950.
A direção de fotografia de Hoyte van Hoytema abre o obturador para as trevas, as sombras, a luz solar e os efeitos visuais, sempre em prol do encantamento. Temos uma forma de narrar que sabe ser realista, na sua sanha estrategista digna de uma partida de tabuleiro, mas que se abre bem ao mágico. Jennifer Lame, na montagem, encontra o espaço certo para dispor presente e passado, delírio e realidade num mesmo tabuleiro, onde a banda sonora de Ludwig Göransson amplia a tensão de cada jogada. Poucas vezes, talvez apenas no subestimado Tenet (2020), Nolan soube usar as cartilhas da ação com tamanha mestria, dialogando com os códigos da tradição de capa e espada. A sua produtora, a Syncopy, faz jus a cada cêntimo do orçamento de 250 milhões de dólares colocado nas suas mãos. Não surpreende que A Odisseia chegue cercada pelo estatuto de acontecimento.
Depois do triunfo de Oppenheimer, com os seus sete Óscares, Nolan consolidou, ao lado da produtora Emma Thomas, a Syncopy como uma das marcas mais respeitadas do cinema contemporâneo, reafirmando a ideia de que um blockbuster também pode ser cinema de autor. O interesse mundial pela sua obra, refletido em retrospetivas, livros e estudos académicos, confirma que o seu prestígio ultrapassa as bilheteiras.






















