Se uma mulher é violada e cede às exigências do agressor para se proteger, é culpada; se resiste, é culpada; caso se defenda, é culpada. A culpa pela violação recai sempre sobre a mulher. Esta é a temática de Sete Invernos em Teerão (Sieben Winter in Teheran, 2023, 96 min), a primeira longa-metragem da argumentista e realizadora alemã Steffi Niederzoll (1981–).
O documentário mostra como as tradições conservadoras do Irão e o poder de um médico influente, ex-agente dos serviços secretos do país, afetam negativamente a vida de uma jovem desconhecida. O caso envolve as rigorosas leis do Irão, incluindo a Lei de Execução Penal.
Em Teerão, em julho de 2007, Reyhaneh Jabbari, então com 19 anos, estava feliz depois de uma chamada telefónica de trabalho. Inesperadamente, foi abordada na rua por um homem que ouvira a sua conversa ao telefone e lhe disse que precisava de uma arquiteta para remodelar o consultório. Surpreendida por ter conseguido mais trabalho, marcou uma visita ao suposto espaço do médico, o dia em que a sua vida se desmoronou para sempre. Ao chegar ao local, percebeu que nada correspondia ao que lhe fora dito, depois de o médico trancar a porta à chave. O homem tentou violá-la. Em legítima defesa, Reyhaneh viu uma faca sobre uma mesa da casa e esfaqueou-o. Desesperada, fugiu do local. Nesse mesmo dia, foi detida em sua casa e acusada de homicídio. Apesar de as provas apontarem para legítima defesa, Reyhaneh não teve voz em tribunal. O seu agressor era um homem influente e poderoso e, mesmo após a morte, continuou a ser protegido pela sociedade patriarcal. O filme revela a misoginia institucional e as incoerências do sistema judicial do país islâmico.
A realizadora documenta a detenção, o julgamento e a injusta condenação desta mulher, que se tornou um símbolo de resistência durante e mesmo depois da tragédia que lhe caiu sobre os ombros. Sete Invernos em Teerão expõe o modo como as mulheres são tratadas no Irão pelos homens que tudo comandam. Por mais que Reyhaneh tenha tido, desde o início, o apoio da família, tudo foi dificultado pelo poder incontestável dos homens daquele país.
A luta de Reyhaneh na prisão acabou por ecoar na luta de outras mulheres dentro e fora das prisões, mulheres que são abusadas e violadas por homens. Há muitas mulheres nas prisões — e homens também —, algumas injustamente, como é o caso da protagonista do filme. Há aquelas que perderam a liberdade devido às condições de exclusão social que as levaram à prisão e outras que cometeram crimes e que, na maioria das vezes, saem do espaço prisional em pior estado do que quando entraram. Sem esquecer que as famílias sofrem e são humilhadas ao ver os seus entes queridos confinados em prisões, muitas delas desumanas e marcadas por todo o tipo de violência, além dos custos financeiros, judiciais, sociais e emocionais que têm de enfrentar.

As estruturas prisionais da maioria dos países, sobretudo dos mais conservadores, são concebidas para punir, não para reeducar ou dar uma nova oportunidade às pessoas para se redimirem dos seus atos e crimes, muitas vezes cometidos em contextos de vulnerabilidade pessoal ou familiar.
A protagonista de Sete Invernos em Teerão questiona como pode um homem compreender aquilo que sente uma mulher vítima de violação se, para o agressor, isso não tem a menor importância. Além disso, as leis relativas à violência contra as mulheres e à legítima defesa são, em geral, definidas e escritas por homens.
Privada da liberdade, Reyhaneh Jabbari lutou como pôde para a reconquistar, com ética e com os valores aprendidos em família, mesmo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, seria condenada à morte por enforcamento, o que veio a acontecer quando tinha 27 anos, a 25 de outubro de 2014, depois de oito anos reclusa e torturada pela polícia do regime iraniano. Reyhaneh, com uma força inabalável, clamou pelo direito à vida e lutou intensamente contra a pena de morte. Este tipo de condenação judicial deveria ser banido, por ser extremamente desumano.
A realizadora foge às dramatizações excessivas e não inova na linguagem cinematográfica, mas constrói um filme impactante, com camadas de imagens tensas, captadas sob risco, vídeos familiares gravados antes de Reyhaneh ser detida, entrevistas à sua família, cartas que escreveu aos familiares e gravações secretas de chamadas telefónicas com a família enquanto aguardava o julgamento. Foram também utilizadas fotografias tiradas às escondidas e o diário de Reyhaneh na prisão, escrito entre 2007 e 2014. A família, em especial a mãe e as irmãs de Reyhaneh, foi incansável na sua defesa, tal como ela própria. Mulheres corajosas e destemidas que se recusaram a render-se à cruel opressão masculina e do poder judicial iraniano.
Nos créditos finais de Sete Invernos em Teerão, há profissionais de operação e assistência de câmara, bem como tradutores iranianos, que assinaram o seu trabalho no filme como anónimos, presumo que por receio de retaliações por parte do Governo iraniano.
Sete Invernos em Teerão estreou na Berlinale, foi exibido em cerca de 100 festivais de cinema de todo o mundo e venceu mais de 40 prémios. É um documentário IMPRESSIONANTE sobre um caso que realmente aconteceu. Um filme de natureza investigativa que combina uma narrativa pessoal com questões sociopolíticas. Um filme sobre os direitos humanos e a condição da mulher no Médio Oriente. É mesmo IMPERDÍVEL! Está disponível em plataformas de streaming, incluindo o VideoClube online da Zero em Comportamento, para alugar por 3 euros.






















