Filmando frequentemente figuras pressionadas por sistemas que as excedem, Ivan Ostrochovský tem dado particular atenção, ao longo da sua carreira no cinema, à intersecção entre responsabilidade moral, instituições e História, quer os seus filmes se desenrolem no auge do comunismo, quer já depois da chegada da democracia e das garras do capitalismo.
Abordando um daqueles episódios históricos que, olhados em retrospetiva, nos fazem franzir os olhos de incredulidade, Only Beautiful Things to Look At (Pramen), na competição ao Globo de Cristal em Karlovy Vary, leva-nos até à Checoslováquia dos anos 1980, ainda sob influência soviética, e a um hospital onde encontramos uma médica que serve de rosto clínico para a violência do Estado sobre o corpo das mulheres. Não apenas perante a decisão de terminar voluntariamente a gravidez, que passa sempre por uma comissão de avaliação, mas principalmente, e neste caso em particular, perante a prática de controlo reprodutivo, que afetava sobretudo mulheres Roma, ou seja, de etnia cigana.
Para se ter uma ideia, na antiga Checoslováquia, entre 1970 e o início dos anos 1990, as estatísticas indicam que as mulheres Roma representaram uma percentagem desproporcional das esterilizações femininas no país, mesmo sendo uma minoria da população.
Only Beautiful Things to Look At centra-se nisso, partindo da história de Ingrid (Aňa Geislerová, extraordinária), uma ginecologista que vive numa posição confortável na hierarquia social, mas que se sente estagnada na prática. Ela vê a sua vida finalmente mexer com a chegada de Agáta (Simona Boledovičová), uma jovem enfermeira de origem Roma, criando uma amizade inesperada que fará Ingrid pensar e agir sobre aquilo que sempre aceitou fazer profissionalmente, colocando em causa a sua vida, a profissão e a ação do Estado.
Dono de um formalismo clássico de leste, Ostrochovský retrata a época de forma austera, usando composições rigorosas que não só captam a frieza do local onde a ação decorre, o hospital, como também os silêncios prolongados e a atenção particular aos rostos das duas protagonistas. Tudo isso envolve o filme numa aura onde o hospital não é apenas um espaço de cura ou saúde, mas uma extensão burocrática do Estado, um lugar onde a intimidade feminina é observada, classificada e decidida por outros que não a mulher, normalmente pouco informada sobre toda a extensão das consequências da prática de esterilização remunerada que lhe oferecem.
Rasgando pontualmente essa frieza formal, surgem algumas metáforas visuais e breves irrupções de carácter quase surreal, que procuram, de alguma forma, dar corpo e voz ao que as personagens não conseguem dizer. Mas, por natureza, Ostrochovský mantém quase sempre um registo de contenção, onde as duas atrizes sobressaem com fulgor, em particular Aňa Geislerová, numa atuação mais centrada nos gestos e nas expressões mínimas do que em grandes momentos dramáticos. Ao seu lado, Simona Boledovičová surpreende pela naturalidade, criando uma relação que, embora feita de hesitações e aproximações sempre suaves, agarra o espectador e lhe dá um gancho emocional essencial para, mais uma vez, observar figuras esmagadas por algo maior do que elas.
E, nisso, Ostrochovský filma um pouco como Loznitsa: ao formalismo matemático e rígido, permite que os seus atores respirem e libertem o lado emocional.


















