Ao longo de 37 anos de uma carreira laureada em Cannes – com o Prix Un Certain Regard dado a “Stopped on Track”, em 2011 – e Berlim – com o Grande Prémio do Júri de 2002 concedido a seu “A Meio do Caminho” -, Andreas Dresen adotou como eixo dramatúrgico, do seu popular repertório de dramédias, relatos sobre pessoas aparentemente comuns cujas vidas saem do eixo após uma colisão com algum acontecimento abrupto.
Por vezes ele aplica esse dispositivo a histórias reais, como se viu em “Gundermann” (2018). Um traço autoral faz com que ele siga nessa linha em “Rabiye Kurnaz vs. George W. Bush”, mas por um percurso, via Berlinale, que lhe traz uma consagração e uma série de troféus merecidos, frente ao potente diálogo travado com as cartilhas de um cinema narrativa académico, mas de comunicação imediata e universal com as plateias. Láureas de Melhor Argumento (confiada a Laila Stieler) e Melhor Interpretação (entregue ao poço de carisma chamada Meltem Kaptan), além do Guild Film Prize, coroaram a inusitada mistura de “Que Horas Ela Volta?” (2015) com “Erin Brokovich” (2000). Mistura apta a arrebatar o público e atestar a força do cinema alemão, num misto de drama e thriller judicial.
Inspirado por fatos reais, “Rabiye Kurnaz vs. George W. Bush” é uma delicada recriação dos primeiros anos do século XXI a partir da histeria ligada aos atentados do 11 de Setembro. A direção de arte de Susanne Hopf, à luz jamais rebuscada da fotografia de Andreas Höfer, é um primor na reconstituição de um passado recente, que tem como eixo os horrores praticados em Guantanamo, a prisão militar em Cuba. Foi para lá que as tropas americanas levaram centenas de pessoas (quase sempre conectadas ao Islão) suspeitas – ainda que forçosamente – de conexão com o terrorismo. O filme começa com o filho mais velho de Rabiye, cidadã turca radicada em Bremen, no norte da Alemanha, sendo levado para essa cadeia. O motivo: a sua opção por seguir o Corão associou-o a criminosos afegãos envolvidos em violência contra a paz. Mas Rabiye, vivida por Meltem sempre nas raias da doçura, sabe a jóia que pariu, sabe da boa índole do rapaz.
Desesperada com a hipótese do que possa acontecer com ele nas garras do Tio Sam, ela apela para as autoridades germânicas, sem sucesso. Decide, então, ir à cata de um advogado cuja maior destreza é defender os direitos humanos: o Dr. Bernhard Docke, papel que Alexander Scheer cria com excelência espartana, entre a fragilidade e a rectidão, esbanjando humanidade. Não haveria motivo de Docke aceitar uma causa tão espinhosa. Mas a choradeira de Rabiye dobra seu coração e leva-o a embarcar numa jornada legal entre a Europa e Washington, onde cenas hilariante acontecem. É uma comicidade que se reporta ao jeito atrapalhado de Rabiye, que, em momento algum, sobrepõe o seu instinto materno de leoa ferida.
Com esses dois personagens tridimensionais ao seu lado, apoiado por uma atriz e um ator em estado de graça, Dresen tece a Comédia Humana do Direito, provocando o espectador a entender os desvios da Lei numa nação que não queria se envolver com a crise provocada com a destruição das Torres Gémeas, em 2011. Mas nesse mundo sem fabulações, onde tudo é de um realismo rascante, Rabiye aceita ser uma “Mãe Ganso” destemida, em luta para salvar a sua prole. É curioso – e corajoso – ver o cineasta ignorar a natureza documental que marcou a estética dos anos 2000 e apostar numa narrativa melodramática.

















