Olmo Omerzu regressa a San Sebastián com “Ungrateful Beings”: família e manipulação

(Fotos: Divulgação)

Realizador de filmes como Winter Flies (2018) e Bird Atlas (2021), que marcaram presença no Festival de Karlovy Vary, Olmo Omerzu regressou a San Sebastián dez anos depois de lá ter estreado Family Film (2015), agora com Ungrateful Beings (2025) – onde volta a assumir-se como um observador das fragilidades familiares.

A família, quase sempre em crise, é um dos temas preferidos do realizador que, em 2015, na secção New Directors, falava de pais ausentes e de filhos a explorar a liberdade e a solidão, tudo em paralelo ao seu próprio naufrágio, num jogo de metáforas sobre autonomia e abandono. Agora, na competição pela Concha de Ouro, o realizador Esloveno que fez carreira na República Checa coloca no centro da narrativa um pai divorciado que, ao tentar proteger a filha anorética, expõe como as dinâmicas familiares oscilam entre o cuidado e o egoísmo, o amor e a manipulação.

Ungrateful Beings

A família é o primeiro espaço onde aprendemos sobre amor, autoridade, lealdade e conflito. É também onde essas noções colapsam com mais facilidade. Para mim, observar esses momentos de rutura é uma forma de falar do mundo em geral”, disse Olmo em San Sebastián, na conferência de imprensa dedicada ao filme.

Em Ungrateful Beings, as férias de um pai e dos seus dois filhos adolescentes no Adriático são abaladas quando Klára, de 17 anos, encontra em Denis, um jovem local, a aceitação (e amor) que lhe faltava. Porém, a suspeita de um homicídio que envolve Denis coloca David perante um dilema: deve proteger a filha — recorrendo à mentira se necessário — ou salvaguardar a sua saúde mental?

Trabalhámos a anorexia da Klára com muito cuidado. E falámos bastante com a atriz e com especialistas para evitar qualquer representação simplista. O mais importante era mostrar a dor e a luta sem reduzir a personagem à sua doença”, explicou Olmo, que se estreou no cinema em 2012 com A Night Too Young, no qual iniciava uma colaboração que mantém até hoje com o produtor Jiří Konečný. “Temos uma relação de confiança e de liberdade criativa. O Jiří conhece bem o meu processo, sabe quando me desafiar e quando me deixar espaço. Sem essa parceria, dificilmente teria conseguido desenvolver a minha filmografia com a consistência que queria.

Assumindo que quis criar contrastes entre um espaço aparentemente luminoso e quase paradisíaco com a dureza da realidade, o cineasta explicou que é nessa diferença que se revelam as fragilidades das personagens e toda a tensão que carregam. E é aqui que a manipulação da verdade surge como resolução. “Queria que o público fosse colocado no mesmo lugar desconfortável que os pais: até onde se pode ir para proteger alguém?”, explicou o cineasta, adicionando que “a linha entre amor e manipulação é muito mais fina do que pensamos.”

O Festival de San Sebastián decorre até 27 de setembro.

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