Quer no seu olhar sobre Alfama e Mouraria, retratado em Do Bairro (2021), quer na aldeia de Lazarim, em Diabo do Entrudo (2024), ou em Soco a Soco, onde regressa a Lisboa, há sempre em Diogo Varela Silva uma atenção (e preocupação) às múltiplas transformações (urbanas, sociais, culturais) e às tradições dos lugares que filma. Mas, olhando para os três filmes, nota-se também outra linha constante: a transmissão de pais para filhos — aquilo a que chamamos legado. Assim sucede com as marchas populares, por exemplo, em Alfama e Mouraria, onde uma nova geração, mesmo vivendo já longe do bairro, continua a representá-lo no concurso anual. E assim acontece em Diabo do Entrudo (2024), com os mais novos a renovarem tradições dos antigos. Essa ideia surge novamente no documentário dedicado a Orlando Jesus, pugilista que deixou a sua marca no panorama do desporto nacional na década de 1970 e 1980, cujo filho, Orlando Jr., lhe seguiu os passos.
Exibido em estreia mundial no Doclisboa, Soco a Soco traça o retrato de um homem e, ao mesmo tempo, fala de uma Lisboa que vai desaparecendo — para o bem e para o mal. Nascido em origens humildes, Orlando Jesus passou pela Lisboa pobre, primeiro na Ajuda, numa casa diminuta partilhada com vários familiares, depois nas barracas da Musgueira. Aprendeu boxe (curiosamente, nunca usa o verbo “lutar”) quando “andava à pêra com o irmão”, passando rapidamente ao profissionalismo na adolescência, através dos Alunos de Apolo. Desertor convicto da Guerra Colonial, fugiu para Espanha, mantendo-se sempre em atividade e ganhando fama de campeão. Regressou a Portugal no pós 25 de abril e manteve-se no ringue até aos 50 anos, acumulando o trabalho de treinador e alcançando ainda o estatuto de árbitro internacional. Pelo caminho, teve várias relações e filhos de cinco mulheres. Confessa uma vida boémia e tornou-se frequentador e proprietário de alguns espaços noturnos — que lhe trouxeram novas vivências, mas também vários tiros pelo corpo, o último dos quais na cabeça, numa vingança de uma rixa antiga.

“Conheço o Orlando há muitos anos, desde miúdo”, disse Diogo Varela Silva no Cinema Ideal, na segunda exibição do filme no Doclisboa, lembrando os tempos em que ia ao Johnny Guitar com amigos e depois comia “um caldo verde ou um bife antes de ir para casa, às seis da manhã”, num espaço noturno que pertencia ao pugilista. “Nas décadas de 70, 80 e 90, a noite de Lisboa teve muita marca do Orlando. Portanto, sim, é também um filme sobre a cidade — uma cidade que, em parte, desapareceu, mas que continua a existir nas palavras e nas memórias. O Orlando continua ativo: na cidade, na sua arte, a trabalhar com a malta mais nova.”
Também presente na sessão do Ideal, Orlando Jesus recorda que Diogo Varela foi treinar consigo para “tirar a barriguinha”, surgindo depois a ideia do filme. “Treino muitos artistas e muita gente. Quando alguém entra pela porta, não pergunto quem foi; pergunto quem é. A partir daí começa o nosso desporto, que é honesto. Fico muito contente por o Diogo me ter convidado. O que viram é a realidade: sem fingimentos. E atrás deste pode vir outro — um segundo “Soco a Soco”, com mais coisas.”
“Tornámo-nos amigos”, sublinha Diogo, recordando que conhecia muitas histórias de Orlando que, claro, não cabiam todas no filme. “Achei que ele merecia que olhássemos para ele de perto. E o que eu sei fazer é cinema.”
O Doclisboa prossegue até 26 de outubro.

