Conhecido principalmente pelas suas incursões musicais no documentário, do fado (Fado Celeste; O Fado da Bia; Fernando Maurício – O Rei Sem Coroa) ao rock (Zé Pedro Rock ‘n’ Roll), Diogo Varela Silva tem viajado igualmente ao reino dos estudos sobre as tradições e transformações (económicas, sociais e políticas) no nosso país. E se o espectador poderia esperar encontrar grandes diferenças entre os mundos de Alfama & Mouraria, que o cineasta retratou em “Do Bairro” (2021), em relação à aldeia de Lazarim, que é foco no seu novo projeto, “O Diabo do Entrudo” (2024), a verdade é que elas vão-se reduzindo à medida que pomos lado a lado os documentários e saltam à vista os “medos” e “preocupações” do cineasta.
Estreado no Doclisboa esta quinta-feira, “O Diabo do Entrudo” leva-nos até ao que comumente chamamos de Portugal profundo, à aldeia de Lazarim, no concelho de Lamego, onde se executa anualmente uma das celebrações carnavalescas mais genuínas e antigas do país, onde os caretos e os trajes elaborados mostram tradições que foram progressivamente alteradas nas dinâmicas de género e na transmissão cultural entre gerações, mas que – como tudo neste país – começam-se a render a um lado mais comercial.
“Não é um medo só meu, é um medo dos tempos em que vivemos”, respondeu o cineasta a uma questão levantada pelo C7nema no habitual Q&A que aconteceu depois da exibição do filme no Cinema São Jorge. “Ao contrário de alguns senhores, não tenho medo dos estrangeiros que vêm para cá. Tenho medo é de como se faz esta transformação. Alfama, por exemplo, ficou dedicada aos Airbnb’s e a maior parte das pessoas que vemos nas Festas de Santo António vêm de Almada e da periferia de Lisboa. Elas já não vivem lá. Não têm lugar lá. Isso assusta-me. É uma preocupação que tenho e temos de ver como combater isto. O meu medo em “O Diabo do Entrudo” é que exista um desvirtuamento do entrudo com o intuito, como diz a Dona Lourdes no filme, de se ter um lado mais comercial e com isso perder aquilo que era.”
Explicando que leu muitos testamentos [uma parte procedimental desta celebração] deste entrudo desde 1914, Diogo diz que já se notam várias diferenças no teor dos textos escritos e na forma como o entrudo é exposto: “Abrejeirou-se muito a linguagem numa tentativa de agradar a um lado mais comercial da coisa. (…) Gosto de assistir à transformação das coisas. Não sou ortodoxo no sentido de manter a tradição, mas preocupa-me às vezes a forma como existe essa evolução da tradição (…) Parti para o território para fazer um filme, mas encontrei outro quando estava no terreno. Fui com as memórias do entrudo que tinha visto e conhecido e deparei-me com as mudanças, com o sentido muito comercial. O entrudo em si já não era aquela paixão toda. Era outra coisa. Achei que era interessante, neste caso em concreto, pôr-me de frente à câmara e deixar o meu testemunho”.
Visitando memórias antigas dos populares sobre a tradição na região, o espectador é levado numa viagem ao antigamente, onde a celebração era vista com maus olhos nos tempos de Salazar, e observando mudanças que a democracia trouxe, como por exemplo a participação mais ativa das mulheres no processo, podendo elas mesmas vestir as fantasias elaboradas, como vemos no filme. Também descobrimos que os caretos de madeira são uma prática mais “recente” (aponta-se para 40 anos), pois antes usavam-se rendas para cobrir o rosto, enquanto se recorda, sem nostalgia ou saudosismo, a fome, a violência que as mulheres estavam submetidas, e aquela vez que a guarda republicana foi lá para travar o carnaval e saiu de lá desarmada.
Abordando a estreia de “O Diabo do Entrudo” no Doclisboa na secção Heart Beat, Diogo Varela Silva agradeceu e disparou: “É o meu festival preferido”.
O Doclisboa termina a 27 de outubro.

